Je ne fay rien sans gayeté

Eu não faço nada sem alegria

Montaigne, Les Essais - Livre II, Chapitre 10.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

SOLITÁRIO — Paul Éluard

Man Ray - As Mãos Livres, Ilustradas pelos Poemas de Paul Éluard
 
SOLITÁRIO
 
Eu teria podido viver sem ti
Viver só

Quem fala
Quem pode viver só
Sem ti
Quem

Ser apesar de tudo
Ser apesar de si

A noite já vai longe

Como um bloco de cristal
Eu me dissolvo na noite

Paul Éluard, As Mãos Livres.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

O ÚLTIMO DIA DO ANO NÃO É O ÚLTIMO DIA DO TEMPO — Carlos Drummond de Andrade

PASSAGEM DO ANO

O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com
[sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouviras o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...
Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.
O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles... e nenhum resolve.
Surge a manhã de um novo ano.
As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.

A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

A TODOS OS AMIGOS
DESEJO SUCESSO, SAÚDE E ALEGRIA,
HOJE, AMANHÃ E SEMPRE.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

O RUÍDO DAS VAGAS — Pierre Reverdy

O RUÍDO DAS VAGAS

Todas as ondas das marinhas da parede poderiam fluir nos pratos, com o alvaiade espumante das vagas.

O fundo permaneceria sempre azul, por trás do sol muito brilhante da moldura.

Na casa, bastante calma num tempo assim, cada um se virou para saber de onde vinha este ruído, este movimento.

Pois ninguém sabia do segredo, exceto aquele cujo olho inquieto não deixava mais o quadrado branco da janela e, nas cortinas levantadas por seu peito comovido, aquele que não tinha vindo senão para ver e não ser visto.

Pierre Reverdy, in Estrelas Pintadas, 1921.

domingo, 28 de dezembro de 2014

DAS FRUTAS EM CINCO TEMPOS — Filinto Elísio Correia e Silva

DAS FRUTAS EM CINCO TEMPOS
3


As frutas, uma a uma, darão suas entranhas à boca
O roçar leve de língua ao gosto de todas as coisas,
As frutas saberão trazer do antanho nossas memórias
Em paraísos de proibir nas árvores todo o proibido.

Uma a uma, não nos poderemos delas jamais apartar,
Sílabas poderosas no ulterior dos verbos acamados
Nos leitos de horizontes surgidos do útero da baía
E nas janelas abertas para o império dos sentidos.

De quantas frutas somos benditos no ventre das vontades,
Quantas lágrimas, suores e sêmenes, vagidos de nada,
A esventrar a espessura de tudo ser mais prima matéria.

Ajoelhados ante o silêncio, soletraremos ao infinito
O que desta idade temos ainda de eterna saudade
E entoaremos, de sussurros tão-somente, o hino às frutas.

Filinto Elísio Correia e Silva, em Cabo Verde: Antologia de Poesia Contemporânea, 2011.
Revista África e Africanidades - Ano IV - n. 13 – Maio. 2011 – ISSN 1983-2354

sábado, 27 de dezembro de 2014

SONETO DE ARVERS — Alphonsus de Guimaraens

O seu mistério tem minh'alma desgraçada:
Um sempiterno amor, nascido num momento;
É sem esp'rança o mal, calá-lo em mim eu tento,
E aquela que o causou inda não sabe nada.

Eu tenho já passado ao pé da minha amada,
Nunca vi seu olhar formoso em mim atento...
Sem nada receber e nem ousar, eu, lento,
Na terra viverei co'a alma desolada.

E a diva, a quem Deus fez suave e enternecida,
Irá pelo caminho andando, distraída,
E este arrulho de amor ela não ouvirá.

Fiel ao seu dever, a minha amante bela
Dirá, lendo o soneto inspirado por ela:
— Esta mulher quem é? — e nada saberá.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

A PESSOA VERDADEIRA DOS TEMPOS ANTIGOS — Zhuangzi

A pessoa verdadeira dos tempos antigos poderia dormir sem sonhar, poderia despertar sem ansiedade, poderia se alimentar sem gula, e poderia encher seus pulmões completamente ao respirar. Uma verdadeira pessoa respirava até o ar chegar a seus calcanhares, enquanto a respiração de outras pessoas só enche o topo de seus pulmões.
Esses, que se agacham em submissão, parecem expelir palavras adiante de suas bocas como vômito. Esses, que abrigam velhos desejos no mais profundo de si mesmos, deixam só um espaço raso para os céus manobrarem.
A pessoa verdadeira dos tempos antigos não estava ciente de expressar alegria em relação à vida, nem de expressar sentimento de  aversão em relação à morte. Ele não sentia necessidade de ser cortês quando partia, nem sentia necessidade de ser indiferente ao chegar. Ele poderia partir tão rapidamente quanto chegava, e não havia nada de mais nisto. Ele não se esquecia de onde começou, mas não questionava onde terminaria. Ele celebrava o que foi recebido, e recapturava o que tinha sido esquecido. Isto é chamado não usar a mente para contribuir com o Dao, e não usar pessoas para ajudar os céus. Isso é que se chamava uma pessoa verdadeira.
Sendo tal, o coração dele era adaptável, sua aparência não era agitada, sua testa não era enrugada. Com uma frieza igual à do outono e um calor igual ao da primavera, alegria e raiva fluíam por ele como as quatro estações. Ele achava satisfação em todas as coisas e não pensava sobre quando ele alcançaria o pináculo.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

domingo, 21 de dezembro de 2014

O PERFUME DA NOITE — Orfeu [Hino 2]

Eu te invoco, ó deusa que geras os deuses e os homens. A noite é o princípio de todas as coisas. Escuta-me, grande deusa, umas vezes velada pela obscuridade, outras coberta por um brilhante manto de estrelas. Amas os lugares habitados pelo sono silencioso e pela agradável preguiça; boa deusa que te comprazes nos festins, a mãe dos sonhos — inimigos de todas as inquietações — e do repouso, a mais tranquila de todas as coisas. Amiga de todos, precedida pelo crepúsculo, habitas alternadamente a terra e o céu; vens do Tártaro e retornas ao Orco caçando diante de ti a luz, pois as leis eternas das coisas a isso te obrigam irrevogavelmente. Sê presente a nossos cantos, ó venerável deusa amada por todos, escuta as humildes preces dos que te suplicam; deusa, vem a nós afugentando as imagens incertas do crepúsculo.

sábado, 20 de dezembro de 2014

SEJA FELIZ

Hoje desejo, a todos, realização de suas capacidades mais profundas.
Agradeço a presença. 
Um abraço.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

MANHÃ — Rimbaud

Tive certa vez uma juventude amável, heroica, fabulosa, digna de ser escrita em letras de ouro — sorte demais! Que crime, que erro me fez merecer minha fraqueza atual? Vós que afirmais que animais exalam soluços de pesar, que os enfermos desesperam, que os mortos têm pesadelos, tratai de relatar meu sonho e minha queda. Por mim, não consigo me explicar melhor do que o faz o mendigo com seus contínuos pai-nossos e ave-marias. Já não sei falar!

Não obstante, hoje, creio ter acabado a narração de meu inferno. Era realmente o inferno: o antigo, do qual o filho do homem abriu as portas.

Desde o mesmo deserto, na mesma noite, meus olhos cansados se abrem sempre para a mesma estrela de prata, sempre, sem que se comovam os Reis da vida, os três magos, o coração, a alma, o espírito. Quando iremos mais além das praias e dos montes, para saudar o nascimento do novo trabalho, da nova sabedoria, a fuga dos tiranos e dos demônios, o fim da superstição, para adorar — os primeiros! — a Natividade sobre a terra!

A canção dos céus, a marcha dos povos! Escravos, não amaldiçoemos a vida.

Rimbaud, Uma Temporada no Inferno.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

ODE A LEUCÓNOE — Horácio

Mais uma.

Não procures saber, contra a vontade dos deuses, que prazo eles fixaram a meus dias e aos teus, Leucónoe; e não o pergunte mais aos cálculos dos astrólogos. Pois é muito melhor esperar e se submeter ao destino!
Deixa que Júpiter aumente ainda teus anos, ou que limite seu curso a este inverno tempestuoso, que mói as vagas contra as barreiras de rochedos; sê sábia, decanta teus vinhos, e põe tua esperança na medida da curta duração da vida.
Enquanto falamos, o tempo ciumento fugiu: colhe a flor do dia e não creias no amanhã.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

PERFUME DA MORTE - Orfeu [Hino 83]

Escuta-me, rainha de todos os homens, quanto mais concedes tempo à sua Vida, mais deles te aproximas. Tu matas os corpos e as almas por um sono eterno; tu rompes os laços da natureza humana e fechas eternamente os olhos dos homens. És comum a todos, e quebras com um fim rápido as flores mais encantadoras. É em ti que todas as coisas se resolvem. Tu não te deixas dobrar nem por súplicas nem por promessas. Abençoada e terrível, não venhas a nós senão bem tarde, nós te imploramos com sacrifícios piedosos, e conceda aos homens uma longa e feliz velhice.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

LINDA, VAMOS VER SE A ROSA — Ronsard

Rosa Pierre de Ronsard, criada por Francis Meilland.
 
 
A CASSANDRA

Linda, vamos ver se a rosa
Que esta manhã abriu
Sua veste púrpura ao sol,
Não perdeu no entardecer
As dobras da veste púrpura,
E seu matiz ao vosso igual.

Ah! vede como em pouco tempo,
Ela por todo lado, Linda,
As belezas deixou cair!
Ó Natureza, cruel madrasta,
Pois que uma tal flor não dura
Senão da manhã à tarde!

Se, então, me credes, Linda,
Enquanto vossa idade floresce
Em sua mais fresca novidade,
Colhei, colhei vossa mocidade:
Como a essa flor a velhice
Fará murchar vossa beleza.
   
Ronsard, Odes, I, 17

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

O MATIZ DA FLOR FOI LAVADO — Komachi Ono

O matiz da flor foi lavado  
Por tempestades de chuva; 
Meus encantos, que antes valorizei tanto, 
Também estão diminuindo.
Ambos floresceram, ai! em vão.

domingo, 14 de dezembro de 2014

É TÃO GENTIL E TÃO HONESTO O AR — Dante

É tão gentil e tão honesto o ar
Da minha Dama, sempre que aparece
E a outrem saúda, que ante ela emudece
Toda língua, e ninguém ousa falar.

Ela se vai sentindo-se louvar,
Vestida de humildade, e até parece
Coisa que lá do Céu à terra desce
A fim de a todos maravilhar.

Mostra-se tão graciosa a quem a mira,
Que nos filtra através do olhar no seio,
Um dulçor que só entende quem o prova.

Parece que do seu lábio se mova
Um suspiro suave, de amor cheio,
Que vai dizendo a toda alma: suspira.

Tradução de Arduíno Bolivar.

sábado, 13 de dezembro de 2014

A CASA DO CORAÇÃO — Friedrich Rückert

O coração tem dois quartos:
Moram ali, sem se ver,
Num a Dor, noutro o Prazer.

Quando o Prazer no seu quarto
Acorda cheio de ardor,
No seu, adormece a Dor...

Cuidado, Prazer! Cautela,
Canta e ri mais devagar...
Não vá a Dor acordar...

Tradução de Antero de Quental.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

VENENO — Baudelaire

O VENENO (AS FLORES DO MAL)

Veste o vinho a mais sórdida palhoça
De um luxo milagroso:
E no oiro de um vapor rubro, que engrossa,
Faz surgir mais de um pórtico, que roça,
Como um sol, que descamba, um céu nevoso.

Dilata o ópio o ciclo do impossível:
Alonga o ilimitado;
Afunda o tempo, e o gozo inexcedível;
E de um morno prazer, negro, terrível
A alma encharca, inda além do que lhe é dado

E nada disto vale o tóxico horrendo,
Que teus olhos destilam,
Lago amargo, em que cai a alma tremendo:
Abismo, em que meus sonhos, que cintilam,
Como em verde lagoa, estão bebendo.

Não vale nada a baba de tua boca,
Que tem prodígio enorme:
Aí sem pena uma alma se sufoca:
Aí no olvido esmaia, e inerme toca;
E a morte acha-a na lama, em que ela dorme...

Tradução de Luiz Delfino.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

SE ME QUERES A TEUS PÉS AJOELHADO — Gonçalves Dias

LIRA

Se me queres a teus pés ajoelhado,
Ufano de me ver por ti rendido,
Ou já em mudas lágrimas banhado;
Volve, impiedosa,
Volve-me os olhos;
Basta uma vez!

Se me queres de rojo sobre a terra,
Beijando a fímbria dos vestidos teus,
Calando as queixas que meu peito encerra,
Dize-me, ingrata,
Dize-me: eu quero!
Basta uma vez!

Mas se antes folgas de me ouvir na lira
Louvor singelo dos amores meus,
Por que minha alma há tanto em vão suspira;
Dize-me, ó bela,
Dize-me: eu te amo!
Basta uma vez!

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

ESTOU NO HOSPÍCIO (O PAVILHÃO E A PINEL) — Lima Barreto

1920
4 de Janeiro

O Pavilhão e a Pinel - Lima Barreto
Estou no Hospício ou, melhor, em várias dependências dele, desde o dia 25 do mês passado.
Estive no pavilhão de observações, que é a pior etapa de quem, como eu, entra para aqui pelas mãos da polícia.
Tiram-nos a roupa que trazemos e dão-nos uma outra, só capaz de cobrir a nudez, e nem chinelos ou tamancos nos dão. Da outra vez que lá estive me deram essa peça do vestuário que me é hoje indispensável. Desta vez, não. O enfermeiro antigo era humano e bom; o atual é um português (o outro o era) arrogante, com uma fisionomia bragantina e presumida. Deram-me uma caneca de mate e, logo em seguida, ainda dia claro, atiraram-me sobre um colchão de capim com uma manta pobre, muito conhecida de toda a nossa pobreza e miséria.
Não me incomodo muito com o hospício, mas o que me aborrece é essa intromissão da polícia na minha vida. De mim para mim, tenho certeza que não sou louco, mas devido ao álcool, misturado com toda a espécie de apreensões que as dificuldades de minha vida material há 6 anos me assoberbam, de quando em quando dou sinais de loucura : deliro.
Além dessa primeira vez que estive no hospício, fui atingido por crise idêntica, em Ouro Fino, e levado para a Santa Casa de lá, em 1916; em 1917, recolheram-me ao Hospital Central do Exército, pela mesma razão; agora, volto ao hospício.
Estou seguro que não voltarei a ele pela terceira vez; senão, saio dele para o São João Batista, que é próximo. Estou incomodando muito os outros, inclusive os meus parentes. Não é justo que tal continue. Quanto aos meus amigos, nenhum apareceu, senão o senhor Carlos Ventura e o sobrinho.
Este senhor Carlos Ventura é um velho homem, tem uma venda na Rua Piauí, em Todos os Santos, fornece para a nossa casa, e foi com auxílio dele que me conseguiram laçar e trazer-me até ao hospício. Acompanharam-me o Alípio e o Jorge.
Passei a noite de 25 no pavilhão, dormindo muito bem, pois a de 24 tinha passado em claro, errando pelos subúrbios, em pleno delírio.
Amanheci, tomei café e pão e fui à presença de um médico, que me disseram chamar-se Adauto .Tratou-me ele com indiferença, fez-me perguntas e deu a entender que, por ele, me punha na rua.
Voltei para o pátio. Que coisa, meu Deus! Estava ali que nem um peru, no meio de muitos outros, pastoreado por um bom português, que tinha um ar rude, mas doce e compassivo, de camponês transmontano. Ele já me conhecia da outra vez. Chamava-me você e me deu cigarros. Da outra vez, fui para a casa-forte e ele me fez baldear a varanda, lavar o banheiro, onde me deu um excelente banho de ducha de chicote. Todos nós estávamos nus, as portas abertas, e eu tive muito pudor. Eu me lembrei do banho de vapor de Dostoievski, na Casa dos Mortos. Quando baldeei, chorei; mas lembrei de Cervantes, do próprio Dostoievski, que pior deviam ter sofrido em Argel e na Sibéria.
Ah! A Literatura ou me mata ou me dá o que eu peço dela.

Anotações para O Cemitério dos Vivos, Capítulo 1 (1ª Parte).

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

RUBAYAT 04 — Omar Khayyam

Age de maneira que teu próximo não tenha que suportar tua sabedoria.
Domina-te sempre a ti mesmo. Nunca cedas à cólera.
Se te queres encaminhar para a paz definitiva, sorri ao Destino que te bate,
e não batas em pessoa nenhuma.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

SENSAÇÃO — Rimbaud

Irei, quando a tarde cante, azul, no verão,
ferido pelo trigo, a pisar a pradaria;
sonhador, sentirei seu frescor nas plantas dos pés
e deixarei que o vento me banhe a cabeça.
Sem falar, sem pensar, irei pelos caminhos:
mas o amor sem limites me brotará na alma.
Irei longe, ditoso, como com uma moça,
pelos campos, tão longe como vagueia o cigano.

domingo, 7 de dezembro de 2014

LEI DO POEMA — Julio Cortázar

Amargo preço do poema,
as nove sílabas do verso;
uma de mais ou uma de menos
alçam-no ao ar ou o condenam.

Somos o xadrez de um rio,
o naipe sempre entre dois lumes;
caem as caras e as cruzes*
a cada curva do caminho.

Cai no verso a palavra,
na lembrança chove o pranto,
cai a noite, cai o pássaro,
tudo é queda amortecida.

Oh! liberdade de não ser livre,
lance de dados que desata
a sigilosa teia de aranha
de encruzilhadas e limites!

Como tua boca na maçã,
como minhas mãos em teus seios,
irá a mariposa ao fogo
para dançar sua última dança.

* caras e cruzes — corresponde ao jogo de cara e coroa.

Uma tradução em prosa, apenas imitando as linhas dos versos originais.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

O PASTOR APAIXONADO À SUA AMADA — Christopher Marlowe

Vem viver comigo e ser meu amor
E todos os prazeres desfrutar
Que montes e vales, várzeas e campos,
Bosques ou íngremes montanhas dão.

E vamos sentar sobre as rochas,
Vendo os pastores alimentar os rebanhos
Ao lado de rasos rios a cujas cascatas
Melodiosas aves cantam madrigais.

E para ti faremos leitos de rosas
E um milhar de cheirosos ramalhetes,
Uma taça de flores e uma túnica
Bordada toda com folhas de murta.

Um vestido feito da mais fina lã
Que de nossos lindos cordeiros aparamos;
Chinelos bem forrados para o frio,
Com fivelas do mais puro ouro.

Um cinto de palha e brotos de hera,
Com ganchos de coral e de âmbar cravejado;
E se estes prazeres podem te comover,
Venha viver comigo e ser meu amor.

Os jovens pastores dançarão e cantarão
Para teu deleite cada manhã de maio:
Se estes encantos tua mente podem comover,
Então vive comigo, e sê meu amor.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

BEBENDO SOZINHO COM A LUA — Li Bai

De um pote de vinho entre as flores
Eu bebi só. Não tinha ninguém comigo —
Até que, elevando minha taça, pedi à luminosa lua
Para trazer minha sombra e nos tornar três.
Ai! A lua não foi capaz de beber
E minha sombra me perseguiu vagamente;
Mas pelo menos durante algum tempo tive estes amigos
Para me alegrar pelo fim de primavera...
Eu cantei. A lua me encorajou.
Eu dancei. Minha sombra cambaleou atrás de mim.
Pelo visto, nós éramos alegres companheiros.
E então eu estava bêbado, e nós nos perdemos.
A benevolência estará sempre segura?
Eu olho a longa estrada do Rio de Estrelas.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

CHUVA — Po Chu-i

Desde que, forasteiro, moro na cidade de Hsun-yang,
Hora após hora a amarga chuva se derramou.
Por poucos dias o céu escuro clareou;
Num sono indiferente desperdicei muito tempo. 
O lago alargou até quase se unir ao céu;
As nuvens afundam até tocar a face da água. 
Além de minha cerca ouço a conversa dos barqueiros; 
No fim da rua ouço a canção do pescador. 
Pássaros nublados estão perdidos no ar amarelo; 
Velas enfunadas chutam as ondas brancas. 
Na frente de meu portão o caminho da carruagem e do cavalo
Numa única noite se transformou num leito de rio.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

ENQUANTO INDA DE ROSA E LÍRIO CHEIA — Garcilaso de la Vega

Enquanto inda de rosa e lírio cheia
Se mostra a cor do vosso lindo gesto,
E o vosso luminoso olhar honesto
O coração abrasa, e o refreia;

Enquanto esse cabelo, que na veia
Do ouro colhido foi, com voo lesto,
Por vosso branco colo manifesto,
O vento move, desordena e ondeia;

Colhei da vossa alegre primavera
O doce fruto, antes que o tempo irado
De neve cubra já o altivo cume.

Matará o frio a rosa passageira,
Mudará tudo o tempo arrebatado,
Para não alterar o seu costume.

domingo, 30 de novembro de 2014

DOCE IRA, DOCE MAL, DOCE BRANDURA — Petrarca

Doce ira, doce mal, doce brandura,
Doce afã, doce peso que hei sentido,
Doce falar tão docemente ouvido
E que é doce de luz ou de aura pura.

Alma, sofre calada o que tortura,
Mitiga o doce afã que te há ofendido
Com o doce louvor que hás recebido
Por esta que é minha única ventura.

Dia virá que suspirando diga
Alguém cheio de inveja: Assás sofrera
Esse por belo amor e seu enredo.

Outros: Ó sorte dura e tão imiga!
Por que esta doce dama não nascera
Pouco mais tarde ou eu pouco mais cedo?

Tradução de Jamil Almansur Haddad.

sábado, 29 de novembro de 2014

O VASO PARTIDO — Sully Prudhomme

O vaso azul destas verbenas,
Partiu-o um leque que o tocou:
Golpe sutil, roçou-o apenas,
Pois nem um ruído o revelou.

Mas a ferida persistente,
Mordendo-o sempre e sem sinal,
Fez, firme e imperceptivelmente,
A volta toda do cristal.

A água fugiu calada e fria,
A seiva toda se esgotou;
Ninguém de nada desconfia.
Não toquem, não, que se quebrou.

Assim, a mão de alguém, roçando
Num coração, enche-o de dor;
E ele se vai, calmo, quebrando,
E morre a flor do seu amor;

Embora intacto ao olhar do mundo,
Sente, na sua solidão,
Crescer seu mal fino e profundo.
Já se quebrou: não toquem, não.

Tradução de Guilherme de Almeida.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

O CORAÇÃO QUE BATE NESTE PEITO — Luiz Guimarães Júnior


O coração que bate neste peito
E que bate por ti unicamente,
O coração, outrora independente,
Hoje humilde, cativo e satisfeito;

Quando eu cair, enfim, morto e desfeito,
Quando a hora soar lugubremente
Do repouso final  — tranquilo e crente
Irá sonhar no derradeiro leito.

E quando um dia fores comovida
— Branca visão que entre os sepulcros erra —
Visitar minha fúnebre guarida,

O coração, que toda em si te encerra,
Sentindo-te chegar, mulher querida,
Palpitará de amor dentro da terra.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

FORMOSA, QUAL PINCEL EM TELA FINA — Maciel Monteiro


Formosa, qual pincel em tela fina
Debuxar jamais pôde, ou nunca ousara;
Formosa, qual jamais desabrochara
Na primavera a rosa purpurina...

Formosa, qual se a própria mão divina
Lhe alinhara o contorno e a forma rara;
Formosa, qual no céu jamais brilhara
Astro gentil, estrela peregrina;

Formosa, qual se a natureza, e a arte,
Dando as mãos em seus dons e em seus lavores,
Jamais pôde imitar no todo ou parte;

Mulher celeste, ó anjo de primores!
Quem pôde ver-te, sem querer amar-te?
Quem pôde amar-te, sem morrer de amores?!

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

PERFUME EXÓTICO — Charles Baudelaire

Quando, cerrando os olhos, numa noite ardente,
Respiro a fundo o odor dos teus seios fogosos,
Vejo abrirem-se ao longe litorais radiosos
Tingidos por um sol monótono e dolente.

Uma ilha preguiçosa que nos traz à mente
Estranhas árvores e frutos saborosos;
Homens de corpos nus, esguios, vigorosos,
Mulheres cujo olhar faísca à nossa frente.

Guiado por teu perfume a tais paisagens belas,
Vejo um porto a ondular de mastros e de velas
Talvez exaustos de afrontar os vagalhões,

Enquanto o verde aroma dos tamarineiros,
Que à beira-mar circula e inunda-me os pulmões,
Confunde-se em minha alma à voz dos marinheiros.

Tradução de Carlos Pujol.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

CANTIGA — D. João de Menezes

Pois minha triste ventura,
Nem meu mal não faz mudança,
Quem me vir ter esperança,
Cuide que é de mais tristura.

E pois vejo que em morrer
Levais gloria não pequena,
Antes não quero viver,
Que viverdes vós em pena.

Quero triste sepultura;
Quero fim sem mais tardança;
Pois nunca tive esperança.
Que não fosse de tristura.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

O ENCONTRO DESFEITO — Poema Chinês Anônimo (± 1000 AC)

Os salgueiros junto ao portão oriental —
Suas folhas espessas, espessas.
A noite foi a hora que nós marcamos,
E agora a estrela d'alva está brilhando.

Os salgueiros junto ao portão oriental —
Sua folhagem densa, densa.
A noite foi a hora que nós marcamos,
E já a estrela d'alva empalidece.

Com ornamentos dourados — um cavaleiro errante.
Ao tear — uma dama pensativa.
A primavera se vai, e ele ainda não voltou;
As flores se foram e ficaram só as folhas.

domingo, 23 de novembro de 2014

EU VI A FLOR DO CÉU — Sousândrade

Eu vi a flor do céu — meiga esperança
Sorrindo para mim, Deus verdadeiro!
Eu amei como um doido a formosura,
E eu não tinha dinheiro...

Então senti minha alma degradada,
Como à bandeira que hasteou Tarquino,
Quando o fogo da febre lhe lavrava
Nas veias do assassino.

E do mundo aos aplausos, minha fronte
Pálida entristeceu, mal resignada,
Como essas flores, cuja alvura indica
Flórea estação passada.

Tarquino = ´Tarquínio, o Soberbo, último rei de Roma, que matou seu sogro, com a ajuda de Túlia Menor, sua mulher e filha do rei Sérvio Túlio.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

CANSADO DO MUNDO — Shunzei

Cansado do mundo, 
Eu tinha pensado me esconder bem longe,
Nesta aldeia da montanha, 
Mas alcança todo canto da noite
O brilho muito luminoso da lua.
 

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

FEIJOADA À MINHA MODA — Vinicius de Moraes

Amiga Helena Sangirardi
Conforme um dia eu prometi
Onde, confesso que esqueci
E embora — perdoe — tão tarde

(Melhor do que nunca!) este poeta
Segundo manda a boa ética
Envia-lhe a receita (poética)
De sua feijoada completa.

Em atenção ao adiantado
Da hora em que abrimos o olho
O feijão deve, já catado
Nos esperar, feliz, de molho.

E a cozinheira, por respeito
À nossa mestria na arte
Já deve ter tacado peito
E preparado e posto à parte

Os elementos componentes
De um saboroso refogado
Tais: cebolas, tomates, dentes
De alho — e o que mais for azado

Tudo picado desde cedo
De feição a sempre evitar
Qualquer contato mais... vulgar
Às nossas nobres mãos de aedo

Enquanto nós, a dar uns toques
No que não nos seja a contento
Vigiaremos o cozimento
Tomando o nosso uísque on the rocks.

Uma vez cozido o feijão
(Umas quatro horas, fogo médio)
Nós, bocejando o nosso tédio
Nos chegaremos ao fogão

E em elegante curvatura:
Um pé adiante e o braço às costas
Provaremos a rica negrura
Por onde devem boiar postas

De carne-seca suculenta
Gordos paios, nédio toucinho
(Nunca orelhas de bacorinho
Que a tornam em excesso opulenta!)

E — atenção! — segredo modesto
Mas meu, no tocante à feijoada:
Uma língua fresca pelada
Posta a cozer com todo o resto.

Feito o quê, retire-se caroço
Bastante, que bem amassado
Junta-se ao belo refogado
De modo a ter-se um molho grosso

Que vai de volta ao caldeirão
No qual o poeta, em bom agouro
Deve esparzir folhas de louro
Com um gesto clássico e pagão.

Inútil dizer que, entrementes
Em chama à parte desta liça
Devem fritar, todas contentes
Lindas rodelas de linguiça

Enquanto ao lado, em fogo brando
Desmilinguindo-se de gozo
Deve também se estar fritando
O torresminho delicioso

Em cuja gordura, de resto
(Melhor gordura nunca houve!)
Deve depois frigir a couve
Picada, em fogo alegre e presto.

Uma farofa? — tem seus dias...
Porém que seja na manteiga!
A laranja gelada, em fatias
(Seleta ou da Bahia) — e chega.

Só na última cozedura
Para levar à mesa, deixa-se
Cair um pouco da gordura
Da linguiça na iguaria - e mexa-se.

Que prazer mais um corpo pede
Após comido um tal feijão?
— Evidentemente uma rede
E um gato para passar a mão...

Dever cumprido. Nunca é vã
A palavra de um poeta... — jamais!
Abraça-a, em Brillat-Savarin
O seu Vinicius de Moraes.


quarta-feira, 19 de novembro de 2014

terça-feira, 18 de novembro de 2014

TAO TE KING, 81 - Lao Tse

Palavras verdadeiras raramente são elaboradas.
Palavras elaboradas raramente são verdadeiras.
Palavras boas raramente são eloquentes.
Palavras eloquentes raramente são boas.
Aquele que sabe raramente é erudito.
Aquele que é erudito raramente sabe.
Os sábios não acumulam sabedoria.
Dando a outros o que eles têm
Eles ainda têm mais.
Compartilhando o que eles têm com outros
Eles ainda são mais ricos.
O Caminho do Céu ajuda e nunca prejudica.
O Caminho do sábio é generoso
E livre de qualquer conflito.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

O IMIGRADO — Oswald de Andrade

Quando vieres de torna-viagem
Trarás a cabeça exangue
E a lembrança inútil
Dos que frequentaram o inferno
Trarás a cabeça
Como os caules amorfos
E teu coração beijará os perfumes da tarde

domingo, 16 de novembro de 2014

PERCEBENDO A FUTILIDADE DA VIDA — Po Chü-i

Escrito na parede de uma cela de monges, aproximadamente 828 AD.
 
Desde o tempo em que eu era um menino vigoroso 
Até agora, quando estou doente e velho, 
As coisas que desejei foram diferentes em tempos diferentes, 
Mas eu estar ocupado, isso nunca mudou. 
Antes, na praia —construindo pagodes de areia; 
— Agora, na Corte, coberto com jade tilintante. 
Isto e aquilo —jogos igualmente infantis, 
Coisas cuja substância passa num momento do tempo! 
Enquanto as mãos estiverem ocupadas, o coração não pode entender; 
Quando não há nenhum Livro Sagrado, então a Doutrina é sã.*
Até mesmo o esforço zeloso para aprender o Caminho, 
Aquele mesmo esforço fará a pessoa errar mais. 
 
* Esta é a doutrina da Seita Dhyana.

sábado, 15 de novembro de 2014

O CEGO E AS UVAS — Trecho de A Vida de Lazarillo de Tormes

Aconteceu que, chegando a um lugar que chamam Almoroz na época em que colhiam as uvas, um vindimador lhe deu um racimo delas em esmola. E como os cestos costumam estar desgastados, e também porque a uva naquela ocasião está muito madura, os bagos do racimo se soltavam em sua mão. Se fosse guardado no saco de provisões virava suco e molhava tudo lá dentro.
Concordou em fazer um banquete, tanto por não poder levar as uvas como para me agradar, pois naquele dia tinha me dado muitos trompaços e golpes. Sentamos numa cerca e ele disse:
"Agora quero ser generoso contigo, de modo que nós dois comamos este racimo de uvas, e que comas tanto dele como eu. Vamos dividi-lo desta maneira: tu pegarás uma vez e eu outra; desde que me prometas não pegar mais de uma a cada vez. Farei o mesmo até que acabemos com ele, e deste jeito não haverá engano."
Feito assim o acordo, começamos; mas logo no segundo lance o traidor mudou de propósito e começou a pegar de duas em duas, pensando que eu devia estar fazendo o mesmo. Como vi que ele quebrava o trato, não me contentei em agir como ele, mas ainda passava na frente: duas a duas, três a três, e como podia as comia. Acabado o racimo, esteve um pouco com o bagaço na mão e, meneando a cabeça, disse:
"Lázaro, me enganaste. Jurarei diante de Deus que comeste as uvas de três em três."
"Não comi — disse eu — mas por que suspeitais isso?"
Respondeu o sagacíssimo cego:
"Sabes como vejo que as comeste de três em três? É que eu comia de duas em duas e não reclamaste."
Ao que não respondi. Ri comigo mesmo e, embora inexperiente, admirei muito o raciocínio arguto do cego.

A Vida de Lazarillo de Tormes e de suas Fortunas e Adversidades, de autor desconhecido. Publicada em 1554. Foi o primeiro romance picaresco e é o modelo do gênero.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

NA PAREDE DE UMA HOSPEDARIA — Song Zhiwen

Inscrito na Parede de uma Hospedaria
Ao Norte da Montanha de Dayu


Dizem que gansos selvagens, voando para o sul,
Aqui retrocedem, este mesmo mês...
E minha própria viagem ao sul
Alguma vez voltará atrás, eu me pergunto?
O rio está pausando na maré baixa,
E os bosques estão densos com a névoa envolvente —
Mas amanhã de manhã, em cima da montanha,
O amanhecer será branco nas ameixeiras do lar.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

UM HOMEM DE ORIGEM MODESTA — Trecho Encontrado no Hagakure

Um homem de origem modesta, que obtém certo renome e alcança uma posição social elevada, é dotado claramente de qualidades excelentes. No entanto, haverá pessoas que sempre acharão desagradável ombrear-se com um homem de genealogia duvidosa, e que sempre recusarão considerar como oficial superior àquele que até então não era mais que um simples soldado.

Fundamentalmente, um homem que se destacou da multidão só pôde fazê-lo porque possui mais habilidade e mérito do que os que estavam situados, inicialmente, num alto escalão. Por isso, devemos sempre testemunhar o maior respeito a esse homem.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

ROSINHA SILVESTRE — Goethe

Estava uma rosinha
Rosinha do silvado
Tão nova e tão fresquinha
Que linda cor que tinha!
Veio um rapaz malvado
Ah rosinha, rosinha,
Rosinha do silvado.

"Vou colher-te, lhe disse,
Rosinha do silvado.
Respondeu com meiguice:
— Bem bom que se ferisse!
Tenho espinhos, malvado!
Ah rosinha, rosinha,
Rosinha do silvado.

Colheu o arteiro a linda
Rosinha do silvado.
Arde-lhe o dedo ainda
E de chorar não finda
Ah rosinha, rosinha,
Rosinha do silvado.

Tradução de Alberto Ramos.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

CANÇÕES DOS CANIÇOS 1 — Nikolaus Lenau

Lá longe o sol está partindo,
cansado o dia foi dormir.
Salgueiros chorões, entrelaçando-se,
tocam a lagoa, tão imóvel, tão funda.
De meu amor tenho que me separar:
Fluam, minhas lágrimas, e Boa viagem!
Tristemente soam as ondulações dos salgueiros,
e os caniços tremulam sob os ventos.
Em minha profunda e silenciosa aflição,
tu, distância, refulge humilde desde longe,
como, através da trama dos caniços e dos salgueiros,
luminosa brilha a estrela da noite.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

RAPSODIA DE SAULO — Aurelio Arturo

Trabajar era bueno en el sur, cortar los árboles,
hacer canoas de los troncos.
Ir por los ríos en el sur, decir canciones,
era bueno. Trabajar entre ricas maderas.

(Un hombre de la riba, unas manos hábiles,
un hombre de ágiles remos por el río opulento,
me habló de las maderas balsámicas, de sus efluvios…
¡Un hombre viejo en el sur, contando historias!)

Trabajar era bueno. Sobre troncos
la vida, sobre la espuma, cantando las crecientes.
¿Trabajar un pretexto para no irse del río,
para ser también el río, el rumor de la orilla?

Juan Gálvez, José Narváez, Pioquinto Sierra,
como robles entre robles… Era grato,
con vosotros cantar o maldecir, en los bosques
abatir avecillas como hojas del cielo.

Y Pablo Garcés, Julio Balcázar, los Ulloas,
tántos que allí se esforzaban entre los días
Trajimos sin pensarlo en el habla los valles,
los ríos, su resbalante rumor abriendo noches,

un silencio que picotean los verdes paisajes,
un silencio cruzado por un ave delgada como hoja.
Mas los que no volvieron viven más hondamente,
los muertos viven en nuestras canciones.

Trabajar… Ese río me baña el corazón.
En el sur. Vi rebaños de nubes y mujeres más leves
que esa brisa que me mece la siesta de los árboles.
Pude ver, os lo juro, era en el bello sur.

Grata fue la rudeza. Y las blancas aldeas,
tenían tan suaves brisas: pueblecillos de río,
en sus umbrales las mujeres sabían sonreír y dar un beso.
Grata fue la rudeza y ese hálito de hombría y de resinas.

Me llena el corazón de luz de un suave rostro
y un dulce nombre, que en la ruta cayó como una rosa.
Aldea, paloma de mi hombro, yo que silbé por los caminos,
yo que canté, un hombre rudo, buscaré tus helechos,

acariciaré tu trenza oscura, –un hombre bronco–,
tus perros lamerán otra vez mis manos toscas.
Yo que canté por los caminos, un hombre de la orilla,
un hombre de ligeras canoas por los ríos salvajes.

domingo, 9 de novembro de 2014

ERROS MEUS, MÁ FORTUNA, AMOR ARDENTE — Camões

Erros meus, má fortuna, amor ardente
em minha perdição se conjuraram;
os erros e a fortuna sobejaram,
que para mim bastava o amor somente.

Tudo passei; mas tenho tão presente
a grande dor das coisas que passaram,
que as magoadas iras me ensinaram
a não querer já nunca ser contente.

Errei todo o discurso de meus anos;
dei causa que a Fortuna castigasse
as minhas mal fundadas esperanças.

De amor não vi senão breves enganos.
Oh! quem tanto pudesse que fartasse
este meu duro gênio de vinganças!

sábado, 8 de novembro de 2014

O MISTÉRIO DA POESIA — Rubem Braga

Não sei o nome desse poeta, acho que boliviano; apenas lhe conheço um poema, ensinado por um amigo. E só guardei os primeiros versos: Trabajar era bueno en el Sur. Cortar los árboles, hacer canoas de los troncos. *

E tendo guardado esses dois versos tão simples, aqui me debruço ainda uma vez sobre o mistério da poesia.

O poema era grande, mas foram essas palavras que me emocionaram. Lembro-me delas às vezes, numa viagem; quando estou aborrecido, tenho notado que as murmuro para mim mesmo, de vez em quando, nesses momentos de tédio urbano. E elas produzem em mim uma espécie de consolo e de saudade não sei de quê.

Lembrei-me agora mesmo, no instante em que abria a máquina para trabalhar nessa coisa vã e cansativa que é fazer crônica.

De onde vem o efeito poético? É fácil dizer que vem do sentido dos versos; mas não é apenas do sentido. Se ele dissesse: Era bueno trabajar en el Sur, não creio que o poema pudesse me impressionar. Se no lugar de usar o infinito do verbo cortar e do verbo hacer usasse o passado, creio que isso enfraqueceria tudo. Penso no ritmo; ele sozinho não dá para explicar nada. Além disso, as palavras usadas são, rigorosamente, das mais banais da língua. Reparem que tudo está dito com os elementos mais simples: trabajar, era bueno, Sur, cortar, árboles, hacer canoas, troncos.

Isso me lembra um dos maiores versos de Camões, todo ele também com as palavras mais corriqueiras de nossa língua:

"A grande dor das coisas que passaram."

Talvez o que impressione seja mesmo isso: essa faculdade de dar um sentido solene e alto às palavras de todo dia. Nesse poema sul-americano a idéia da canoa é também um motivo de emoção.

Não há coisa mais simples e primitiva que uma canoa feita de um tronco de árvore; e acontece que muitas vezes a canoa é de uma grande beleza plástica. E de repente me ocorre que talvez esses versos me emocionem particularmente por causa de uma infância de beira-rio e de beira-mar. Mas não pode ser: o principal sentido dos versos é o do trabalho; um trabalho que era bom, não essa "necessidade aborrecida" de hoje. Desejo de fazer alguma coisa simples, honrada e bela, e imaginar que já se fez.

Fala-se muito em mistério poético; e não faltam poetas modernos que procurem esse mistério enunciando coisas obscuras, o que dá margem a muito equívoco e muita bobagem. Se na verdade existe muita poesia e muita carga de emoção em certos versos sem um sentido claro, isso não quer dizer que, turvando um pouco as águas, elas fiquem mais profundas...

O poema é Rapsodia de Saulo do poeta colombiano Aurelio Arturo.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

SOBRE A ARTE DE ESCREVER - Jessamyn West

Às vezes eu penso que um escritor deveria se decidir se ele vai ser um escritor ou um leitor.
A coisa que um escritor deve fazer é começar a escrever assim que puder.

A Arte da Ficção Nº 67 [1977] 
Entrevistada por Carolyn Doty.
the Paris Review

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

ODE A LEUCÓNOE — Horácio

Mais uma versão da Ode I. 11. de Horácio, só porque nela é que se encontra a expressão 'carpe diem'.

Não tente saber, Leucónoe, que fim os deuses assinalaram a você ou a mim. Este conhecimento nos é proibido. Não interrogue mais estes números mágicos, vindos da Babilônia.
É preferível aceitar o que tem que acontecer, que Júpiter nos conceda novamente muitos outros invernos, ou que este seja nossa estação derradeira, apreciando agora o mar Tirreno, erguendo-se nas areias da praia.
Você faria bem melhor, enchendo nossas taças de vinho leve e reduzindo as expectativas distantes ao alcance de nossa curta duração.
Enquanto nós falamos, foge o tempo ciumento. Colha então o dia presente, sem confiar muito no dia de amanhã.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

terça-feira, 4 de novembro de 2014

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

DA 14ª CARTA AO FILHO — Conde de Chesterfield

... lembre-se de que erros e enganos, embora grosseiros, em assuntos de opinião, se são sinceros, devem ser lastimados, mas não castigados nem ridicularizados. A cegueira do entendimento deve ser tão lastimada como a cegueira do olho; e não há nem ridículo nem culpa num homem que perde o rumo em qualquer desses casos. A caridade nos incita a orientá-lo se pudermos, por argumentos e persuasões; mas a caridade, ao mesmo tempo, proíbe castigar ou ridicularizar seu infortúnio. A razão de cada homem é, e deve ser, o seu guia; e eu tanto posso esperar que todo homem seja de meu tamanho e aparência, como esperar que raciocine da minha mesma maneira. Todo homem busca a verdade; mas só Deus sabe quem a encontrou. É, portanto, tão injusto perseguir, como é absurdo ridicularizar, pessoas pelas diversas opiniões, que não podem evitar de manter na convicção de sua razão. É o homem que diz, ou que pratica uma mentira, que é culpado, e não aquele que, honestamente e sinceramente, acredita na mentira. Eu realmente não conheço nada mais criminoso, mais baixo, e mais ridículo, do que a mentira. É produto da malícia, covardia, ou vaidade; e geralmente erra o alvo em qualquer destes aspectos; porque cedo ou tarde as mentiras sempre são descobertas.

sábado, 1 de novembro de 2014

LAI DE LEONORETA — João de Lobeira

Senhor genta,
Mi tormenta
Voss'amor em guisa tal,
Que tormenta
Que eu senta
Outra non m'é ben nen mal
Mais la vossa m'é mortal!
Leonoreta,
Fin roseta,
Bela sobre toda fror,
Fin roseta,
Non me meta
En tal coita voss'amor!

Das que vejo
Non desejo
Outra senhor se vós non;
E desejo
Tan sobejo
Mataria un leom
Senhor do meu coraçon!
Leonoreta,
Fin roseta,
Bela sobre toda fror,
Fin roseta,
Non me meta
En tal coita voss'amor!

Mha ventura
En loucura
Me meteo de vos amar;
É loucura
Que me dura
Que me non posso en quitar
Ai fremusura sem par!
Leonoreta,
Fin roseta,
Bela sobre toda fror,
Fin roseta,
Non me meta
En tal coita voss'amor!

Senhor genta = gentil senhora
em guisa tal = de tal maneira
Que eu senta = que eu sinta
Fin roseta = fina roseta (roseta = pequena rosa)
coita = estado de aflição e abatimento; pena, infelicidade, dor; ânsia
quitar = livrar

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

A GALINHA DOS OVOS DE OURO - Esopo

Um aldeão e sua mulher tinham uma galinha que botava um ovo de ouro todo os dias. Eles supunham que a galinha continha um grande pedaço de ouro em seu interior e, para pegar esse ouro, eles mataram a galinha. Tendo feito isso, surpreenderam-se ao descobrir que a galinha em nada era diferente das outras. O casal de tolos, esperando ficar ricos de repente, privou-se de um ganho do qual estavam seguros dia a dia.

A cobiça frequentemente engana a si mesma.

A Natureza é essa galinha.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

EXAME PARA O POSTO DE ANJO DA GUARDA — Songling Pu

O avô do marido de minha irmã mais velha, chamado Tao Sung, era um bacharel. Um dia, enquanto estava deitado por causa de uma indisposição, um mensageiro oficial chegou, trazendo a notificação usual na mão e conduzindo um cavalo com uma testa branca, para levá-lo ao exame do grau de mestre. O Sr. Sung então comentou que o Examinador Principal ainda não tinha vindo, e perguntou por que deveria haver tanta pressa. O mensageiro não respondeu a isto, mas o pressionou com tanta gravidade que por fim o Sr. Sung se ergueu e, montando no cavalo, cavalgou com ele. O caminho parecia estranho, mas depois eles chegaram a uma cidade que se assemelhava à capital de um príncipe.

Eles entraram no palácio do Prefeito, cujos aposentos estavam graciosamente enfeitados; e lá eles encontraram uns dez funcionários que se sentavam na parte superior, todos estranhos para o Sr. Sung, com exceção de um que ele reconheceu como o Deus de Guerra. Na varanda, havia duas mesas e dois bancos, e num deles um candidato já estava sentado; assim, o Sr. Sung se sentou no outro. Na mesa havia materiais de escrita para cada um, e de repente um pedaço de papel voou para baixo com um tema nele, consistindo nas oito palavras seguintes: "Um homem, dois homens; com intenção, sem intenção."

Quando o Sr. Sung terminou sua composição, ele a levou de volta até o saguão. Continha a passagem seguinte: "Aqueles que têm intenção de ser virtuosos, embora virtuosos, não serão recompensados. Aqueles que não têm intenção de ser maus, embora maus, não receberão nenhum castigo."

As deidades que presidiam elogiaram muito este sentimento, e chamando o Sr. Sung à frente, disseram a ele: "Um anjo da guarda é necessário em Honan. Vá você e assuma o compromisso." O Sr. Sung, assim que ouviu isto, dobrou a cabeça e chorou, dizendo: "Embora desmerecedor da honra que vós me conferis, eu não deveria me atrever a recusá-la, mas minha velha mãe atingiu a sétima década, e não tem ninguém agora para tomar conta dela. Eu vos peço que me deixeis esperar até que ela cumpra o seu destino, quando eu me colocarei à sua disposição.”

Logo após, uma das deidades, que parecia ser o chefe, deu instruções para procurar o termo de vida da mãe dele, e um criado de barba longa trouxe o Livro do Destino em seguida. Virando suas páginas, ele declarou que ela ainda tinha nove anos para viver; e então uma consulta foi organizada entre as deidades, no meio da qual o Deus de Guerra disse: "Muito bem. Deixemos que o bacharel Sr. Chang assuma o posto, e seja liberado daqui a nove anos". Então, virando-se para o Sr. Sung, continuou: "Você deveria partir sem demora para seu posto; mas como uma recompensa por sua devoção filial, lhe é concedida uma licença de nove anos. Ao fim deste prazo, você receberá outra convocação." Ele dirigiu algumas palavras amáveis em seguida ao Sr. Chang; e os dois candidatos, tendo feito suas reverências, foram embora juntos.

Pegando a mão do Sr. Sung, o companheiro dele — que disse se chamar "Chang Ch'i", de Ch'ang-shan, — o acompanhou além das muralhas de cidade e lhe declamou à despedida uma estrofe de poesia. Eu não consigo me lembrar dela toda, mas nela havia esta parelha de versos:


Com vinho e flores nós perseguimos as horas,
Numa primavera eterna:
Nenhuma lua, nenhuma luz, para alegrar a noite —
Tu mesmo aquele raio tens que trazer.

O Sr. Sung então o deixou e cavalgou de volta e pouco depois chegou à sua própria casa; lá ele acordou como se de um sonho, e descobriu que tinha ficado morto por três dias, quando sua mãe, ouvindo um gemido no caixão, correu até ele e o socorreu. Demorou algum tempo antes que ele pudesse falar, e então ele indagou imediatamente sobre Ch'ang-shan, onde, como se ficou sabendo, um bacharel chamado Chang tinha morrido naquele mesmo dia.
 
Nove anos depois, a mãe do Sr. Sung, conforme o destino, passou desta vida; e quando as cerimônias fúnebres terminaram, o filho dela, tendo antes se purificado, entrou em seu aposento e também morreu.

A família da esposa dele vivia dentro da cidade, próximo ao portão ocidental; e de repente eles viram o Sr. Sung, acompanhado por numerosas carruagens e cavalos com ricas decorações, entrar pelo corredor, fazer uma reverência e partir. Eles ficaram muito desconcertados com isto, pois não sabiam que ele tinha se tornado um espírito, e foram depressa à aldeia fazer indagações, quando ouviram dizer que ele já estava morto.

O Sr. Sung tinha um informe da aventura escrito por ele; mas, infelizmente, depois da insurreição não foi achado. Este é só um esboço da história.

Songling Pu, Histórias Estranhas de um Estúdio Chinês.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

O TESOURO — Eça de Queirós

I
Os três irmãos de Medranhos, Rui, Guanes e Rostabal, eram então, em todo o Reino das Astúrias, os fidalgos mais famintos e os mais remendados.
Nos Paços de Medranhos, a que o vento da serra levara vidraça e telha, passavam eles as tardes desse Inverno, engelhados nos seus pelotes de camelão, batendo as solas rotas sobre as lajes da cozinha, diante da vasta lareira negra, onde desde muito não estalava lume, nem fervia a panela de ferro. Ao escurecer devoravam uma côdea de pão negro, esfregada com alho.
Depois, sem candeia, através do pátio, fendendo a neve, iam dormir á estrebaria, para aproveitar o calor das três éguas lazarentas que, esfaimadas como eles, roíam as traves da manjedoura. E a miséria tornara estes senhores mais bravios que lobos.
Ora, na Primavera, por uma silenciosa manhã de domingo, andando todos três na mata de Roquelanes a espiar pegadas de caça e a apanhar tortulhos entre os robles, enquanto as três éguas pastavam a relva nova de Abril — os irmãos de Medranhos encontraram, por trás de uma moita de espinheiros, numa cova de rocha, um velho cofre de ferro. Como se o resguardasse uma torre segura, conservava as suas três chaves nas suas três fechaduras. Sobre a tampa, mal decifrável através da ferrugem, corria um dístico em letras árabes. E dentro, até às bordas, estava cheio de dobrões de ouro!
No terror e esplendor da emoção, os três senhores ficaram mais lívidos do que círios. Depois, mergulhando furiosamente as mãos no ouro, estalaram a rir, num riso de tão larga rajada que as folhas tenras dos olmos, em roda, tremiam... E de novo recuaram, bruscamente se encararam, com os olhos a flamejar, numa desconfiança tão desabrida que Guanes e Rostabal apalpavam nos cintos os cabos das grandes facas. Então Rui, que era gordo e ruivo, e o mais avisado, ergueu os braços, como um árbitro, e começou por decidir que o tesouro, ou viesse de Deus ou do Demônio, pertencia aos três, e entre eles se repartiria, rigidamente, pesando-se o ouro em balanças. Mas como poderiam carregar para Medranhos, para os cimos da serra, aquele cofre tão cheio? Nem convinha que saíssem da mata com o seu bem, antes de cerrar a escuridão. Por isso ele entendia que o mano Guanes, como mais leve, devia trotar para a vila vizinha de Retortilho, levando já ouro na bolsilha, a comprar três alforjes de couro, três maquias de cevada, três empadões de carne e três botelhas de vinho. Vinho e carne eram para eles, que não comiam desde a véspera: a cevada era para as éguas. E assim refeitos, senhores e cavalgaduras, ensacariam o ouro nos alforjes e subiriam para Medranhos, sob a segurança da noite sem lua.
— Bem tramado! — gritou Rostabal, homem mais alto que um pinheiro, de longa guedelha, e com uma barba que lhe caía desde os olhos raiados de sangue até a fivela do cinturão.
Mas Guanes não se arredava do cofre, enrugado, desconfiado, puxando entre os dedos a pele negra do seu pescoço de grou. Por fim, brutalmente:
— Manos! O cofre tem três chaves... Eu quero fechar a minha fechadura e levar a minha chave!
— Também eu quero a minha, mil raios! — rugiu logo Rostabal.
Rui sorriu. Decerto, decerto! A cada dono do ouro cabia uma das chaves que o guardavam. E cada um em silêncio, agachado ante o cofre, cerrou a sua fechadura com força. Imediatamente Guanes, desanuviado, saltou na égua, meteu pela vereda de olmos, a caminho de Retortilho, atirando aos ramos a sua cantiga costumada e dolente:
Olé! Olé!
Sale la cruz de la iglesia,
Vestida de negro luto...

II
Na clareira, em frente à moita que encobria o tesouro (e que os três tinham desbastado a cutiladas), um fio de água, brotando entre rochas, caía sobre uma vasta laje escavada, onde fazia como um tanque, claro e quieto, antes de se escoar para as relvas altas. E ao lado, na sombra de uma faia, jazia um velho pilar de granito, tombado e musgoso. Ali vieram sentar-se Rui e Rostabal, com os seus tremendos espadões entre os joelhos. As duas éguas retouçavam a boa erva pintalgada de papoulas e botões-de-ouro. Pela ramaria andava um melro a assobiar. Um cheiro errante de violetas adoçava o ar luminoso. E Rostabal, olhando o Sol, bocejava com fome.
Então Rui, que tirara o sombreiro e lhe cofiava as velhas plumas roxas, começou a considerar, na sua fala avisada e mansa, que Guanes, nessa manhã, não quisera descer com eles à mata de Roquelanes. E assim era a sorte ruim! Pois que se Guanes tivesse quedado em Medranhos, só eles dois teriam descoberto o cofre, e só entre eles dois se dividiria o ouro! Grande pena! Tanto mais que a parte de Guanes seria em breve dissipada, com rufiões, aos dados, pelas tavernas.
— Ah! Rostabal, Rostabal! Se Guanes, passando aqui sozinho, tivesse achado este ouro, não dividia conosco, Rostabal!
O outro rosnou surdamente e com furor, dando um puxão às barbas negras:
— Não, mil raios! Guanes é sôfrego... Quando o ano passado. se te lembras, ganhou os cem ducados ao espadeiro de Fresno, nem me quis emprestar três para eu comprar um gibão novo!
— Vês tu? — gritou Rui, resplandecendo.
Ambos se tinham erguido do pilar de granito, como levados pela mesma ideia, que os deslumbrava. E, através das suas largas passadas, as ervas altas silvavam.
— E para quê — prosseguia Rui. — Para que lhe serve todo o ouro que nos leva? Tu não o ouves, de noite, como tosse? Ao redor da palha em que dorme, todo o chão está negro do sangue que escarra! Não dura até as outras neves, Rostabal! Mas até lá terá dissipado os bons dobrões que deviam ser nossos, para levantarmos a nossa casa, e para tu teres ginetes, e armas, e trajes nobres, e o teu terço de solarengos, como compete a quem é, como tu, o mais velho dos de Medranhos...
— Pois que morra, e morra hoje! — bradou Rostabal.
— Queres?
Vivamente, Rui agarrara o braço do irmão e apontava para a vereda de olmos, por onde Guanes partira cantando:
— Logo adiante, ao fim do trilho, há um sítio bom, nos silvados. E hás-de ser tu, Rostabal, que és o mais forte e o mais destro. Um golpe de ponta pelas costas. E é justiça de Deus que sejas tu, que muitas vezes, nas tavernas, sem pudor, Guanes te tratava de "cerdo" e de "torpe", por não saberes a letra nem os números.
— Malvado!
— Vem!
Foram. Ambos se emboscaram por trás de um silvado que dominava o atalho, estreito e pedregoso como um leito de torrente. Rostabal, assolapado na vala, tinha já a espada nua. Um vento leve arrepiou na encosta as folhas dos álamos — e sentiram o repique leve dos sinos de Retortilho. Rui, coçando a barba, calculava as horas pelo Sol, que já se inclinava para as serras. Um bando de corvos passou sobre eles, grasnando E Rostabal, que lhes seguira o voo, recomeçou a bocejar, com fome, pensando nos empadões e no vinho que o outro trazia nos alforjes.
Enfim! Alerta! Era, na vereda, a cantiga dolente e rouca, atirada aos ramos:
Olé! Olé!
Sale la cruz de la iglesia,
Vestida de negro luto...
Rui murmurou: — Na ilharga! Mal que passe! — O chouto da égua bateu o cascalho, uma pluma num sombreiro vermelhejou por sobre a ponta das silvas.
Rostabal rompeu de entre a sarça por uma brecha, atirou o braço, a longa espada — e toda a lâmina se embebeu molemente na ilharga de Guanes, quando ao rumor, bruscamente ele se virara na sela. Com um surdo arranco, tombou de lado, sobre as pedras. Já Rui se arremessava aos freios da égua — Rostabal. caindo sobre Guanes, que arquejava, de novo lhe mergulhou a espada, agarrada pela folha como um punhal, no peito e na garganta.
— A chave! — gritou Rui.
E arrancada a chave do cofre ao seio do morto, ambos largaram pela vereda — Rostabal adiante, fugindo, com a pluma do sombreiro quebrada e torta, a espada ainda nua entalada sob o braço, todo encolhido, arrepiado com o sabor do sangue que lhe espirrara para a boca: Rui, atrás, puxava desesperadamente os freios da égua, que, de patas fincadas no chão pedregoso, arreganhando a longa dentuça amarela. não queria deixar o seu amo assim estirado, abandonado, ao comprido das sebes.
Teve de lhe espicaçar as ancas lazarentas com a ponta da espada — e foi correndo sobre ela, de lâmina alta, como se perseguisse um mouro, que desembocou na clareira onde o sol já não dourava as folhas. Rostabal arremessara para a relva o sombreiro e a espada; e debruçado sobre a laje escavada em tanque, de mangas arregaçadas, lavava, ruidosamente, a face e as barbas.
A égua, quieta, recomeçou a pastar, carregada com os alforjes novos que Guanes comprara em Retortilho. Do mais largo, abarrotado, surdiam dois gargalos de garrafas. Então Rui tirou, lentamente, do cinto, a sua larga navalha. Sem um rumor na relva espessa, deslizou até Rostabal, que resfolegava, com as longas barbas pingando. E serenamente, como se pregasse uma estaca num canteiro, enterrou a folha toda na largo dorso dobrado, certeira sobre o coração.
Rostabal caiu sobre o tanque, sem um gemido, com a face na água, os longos cabelos flutuando na água. A sua velha escarcela de couro ficara entalada sob a coxa. Para tirar de dentro a terceira chave do cofre, Rui solevou o corpo — e um sangue mais grosso jorrou, escorreu pela borda do tanque, fumegando.

III
Agora eram dele. só dele, as três chaves do cofre! E Rui, alargando os braços, respirou deliciosamente. Mal a noite descesse, com o ouro metido nos alforjes, guiando a fila das éguas pelos trilhos da serra, subiria a Medranhos e enterraria na adega o seu tesouro! E quando ali na fonte, e além rente aos silvados, só restassem, sob as neves de Dezembro. alguns ossos sem nome. ele seria o magnífico senhor de Medranhos, e na capela nova do solar renascido mandaria dizer missas ricas pelos seus dois irmãos mortos... Mortos como? Como devem morrer os de Medranhos — a pelejar contra o Turco!
Abriu as três fechaduras, apanhou um punhado de dobrões, que fez retinir sobre as pedras. Que puro ouro, de fino quilate! E era o seu ouro! Depois foi examinar a capacidade dos alforjes — e encontrando as duas garrafas de vinho, e um gordo capão assado, sentiu uma imensa fome. Desde a véspera só comera uma lasca de peixe seco. E há quanto tempo não provava capão!
Com que delícia se sentou na relva, com as pernas abertas, e entre elas a ave loura, que recendia, e o vinho cor de âmbar! Ah! Guanes fora bom mordomo — nem esquecera azeitonas. Mas por que trouxera ele, para três convivas, só duas garrafas? Rasgou uma asa do capão: devorava a grandes dentadas. A tarde descia, pensativa e doce, com nuvenzinhas cor-de-rosa.
Para além, na vereda, um bando de corvos grasnava. As éguas fartas dormitavam, com o focinho pendido. E a fonte cantava, lavando o morto.
Rui ergueu à luz a garrafa de vinho. Com aquela cor velha e quente, não teria custado menos de três maravedis. E pondo o gargalo à boca, bebeu em sorvos lentos, que lhe faziam ondular o pescoço peludo. Oh! vinho bendito, que tão prontamente aquecia o sangue! Atirou a garrafa vazia — destapou outra. Mas, como era avisado, não bebeu, porque a jornada para a serra, com o tesouro, requeria firmeza e acerto. Estendido sobre o cotovelo, descansando, pensava em Medranhos coberto de telha nova, nas altas chamas da lareira por noites de neve, e o seu leito com brocados, onde teria sempre mulheres.
De repente, tomado de urna ansiedade, teve pressa de carregar os alforjes. Já entre os troncos a sombra se adensava. Puxou uma das éguas para junto do cofre, ergueu a tampa. tomou um punhado de ouro... Mas oscilou, largando os dobrões, que retilintaram no chão, e levou as duas mãos aflitas ao peito. Que é, D. Rui? Raios de Deus! Era um lume, um lume vivo, que se lhe acendera dentro, lhe subia até às goelas. Já rasgara o gibão, atirava os passos incertos, e, a arquejar, com a língua pendente. limpava as grossas bagas de um suor horrendo que o regelava como neve. Oh Virgem Mãe! Outra vez o lume, mais forte, que alastrava, o roía! Gritou:
— Socorro! Alguém! Guanes! Rostabal!
Os seus braços torcidos batiam o ar desesperadamente. E a chama dentro galgava — sentia os ossos a estalarem como as traves de uma casa em fogo.
Cambaleou até à fonte para apagar aquela labareda, tropeçou sobre Rostabal; e foi com o joelho fincado no morto, arranhando a rocha, que ele, entre uivos, procurava o fio de água. que recebia sobre os olhos, pelos cabelos. Mas a água mais o queimava, como se fosse um metal derretido. Recuou. caiu para cima da relva. que arrancava aos punhados, e que mordia, mordendo os dedos, para lhe sugar a frescura. Ainda se ergueu. com uma baba densa a escorrer-lhe nas barbas: e de repente, esbugalhando pavorosamente os olhos, berrou, como se compreendesse enfim a traição, todo o horror:
— É veneno!
Oh! D. Rui, o avisado, era veneno! Porque Guanes, apenas chegara a Retortilho, mesmo antes de comprar os alforjes, correra cantando a uma viela, por detrás da catedral, a comprar ao velho droguista judeu o veneno que, misturado ao vinho, o tornaria a ele, a ele somente, dono de todo o tesouro.
Anoiteceu. Dois corvos, de entre o bando que grasnava além nos silvados, já tinham pousado sobre o corpo de Guanes. A fonte, cantando. lavava o outro morto. Meio enterrado na erva negra, toda a face de Rui se tornara negra. Uma estrelinha tremeluzia no céu.
O tesouro ainda lá está, na mata de Roquelanes.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

SONHO DE BORBOLETA — Zhuang Zhou

Algum tempo atrás, eu, Zhuang Zhou, sonhei que era uma borboleta. Absorvido pela felicidade de ser uma borboleta, estava inebriado por voar por aí e fazer o que borboletas fazem. Eu nem mesmo sabia que era Zhou. Quando acordei, subitamente descobri que era Zhou. Eu não sabia se era Zhou sonhando que era uma borboleta, ou se era uma borboleta sonhando que era Zhou. Deve haver algo que separe Zhou da borboleta. Isso é chamado metamorfose.

PARTINDO DESTA VIDA — Anônimo

Neste caminho
muitas vezes ouvi dizer
que o homem parte no fim
— entretanto, nunca pensei partir
tão cedo
— hoje.

domingo, 26 de outubro de 2014

DUAS MÁXIMAS — Epicteto

Lembre-se de que quem você ama é mortal — que aquilo que você ama não lhe pertence; lhe é dado no presente, não irrevogavelmente, nem para sempre, mas assim como um figo ou um cacho de uvas, na estação apropriada do ano...

Eu sou por Natureza feito para meu próprio bem; não para meu próprio mal.

Dos Ensinamentos Áureos de Epicteto.

sábado, 25 de outubro de 2014

COMEÇA A MANHÃ DIZENDO A TI MESMO - Marco Aurélio

Começa a manhã dizendo a ti mesmo: hoje eu me encontrarei com um homem intrometido, um ingrato, um arrogante, um enganador, um invejoso, um antissocial. Todas estas coisas acontecem a eles por causa de sua ignorância do que é bom e do que é mal. Mas eu que compreendo a natureza do bem (que é desejável) e do mal (que é verdadeiramente odioso e vergonhoso), que sei, além disso, que este transgressor é meu parente - não pelo mesmo sangue e semente, mas por participação da mesma razão e da mesma partícula divina - eu não posso nem ser prejudicado por qualquer deles, pois ninguém pode me fazer incorrer no que é reprovável, nem posso me irar contra eles, cuja natureza é tão próxima da minha. Porque nascemos para a cooperação, como os pés, como as mãos, como as pálpebras, como as fileiras dos dentes superiores e inferiores. Agir um contra o outro, então, é contrário à natureza; e odiá-los ou rejeitá-los é agir um contra o outro.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

A SAUDAÇÃO DA AURORA — Texto Sânscrito.

Ouve a Exortação da Aurora!
Cuida deste Dia!
Pois é a Vida, a própria vida da Vida.
Em seu breve curso residem todas as Verdades
E Realidades de tua Existência:
A Bênção do Crescimento,
a Glória da Ação,
O Esplendor da Beleza.
Pois Ontem é apenas um Sonho
E Amanhã apenas uma Visão;
Mas Hoje bem vivido torna cada Ontem
Um Sonho de Felicidade,
E cada Amanhã uma Visão de Esperança.
Cuida bem, pois, deste Dia!
Esta é a Saudação da Aurora.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

A GRANDEZA DOS GRANDES — Pierre Victurnien Vergniaud

Os grandes senhores só são grandes porque nós estamos de joelhos: vamos ficar de pé!
Isso foi dito por Vergniaud num de seus discursos de 1792, durante a Revolução Francesa, em que teve participação fundamental. Esse pensamento é, em geral e erroneamente, atribuído a Étienne de La Boétie.
Pierre Victurnien Vergniaud foi guilhotinado em 31 de outubro de 1793.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

O HOMEM LIVRE E A MORTE — Spinoza

Um homem livre pensa menos na morte do que em qualquer outra coisa; e sua sabedoria não é uma meditação da morte, mas da vida.

Espinoza, Ética, Parte 4, Proposição 67

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

A GUERRA ENTRE OS ESPÍRITOS CELESTIAIS E OS DEMÔNIOS - Lusin (Chou Shujen)

Na guerra entre os supostos espíritos celestiais e os demônios, ambos os bandos não estão lutando pelo controle do céu, mas pelo controle do inferno. Portanto, independente de quem ganha, o inferno ainda permanece o inferno.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

QUAL É TEU DESTINO? — Omar Khayyam

Suponhamos que tenhas resolvido o enigma do universo.
Qual é teu destino?
Suponhamos que tenhas arrancado todos os véus que encobrem a verdade.
Qual é teu destino?
Suponhamos que tenhas vivido feliz por cem anos, e ainda vás viver mais cem anos.
Qual é teu destino?

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

DE O MITO DE SÍSIFO (EXCERTOS) — Albert Camus

Dedicado a todos que, sem esmorecimento, realizam seu trabalho quotidiano e não perdem a esperança.

Os deuses tinham condenado Sísifo a rolar um rochedo incessantemente até o cimo de uma montanha, de onde a pedra caía de novo por seu próprio peso. Eles tinham pensado, com as suas razões, que não existe punição mais terrível do que o trabalho inútil e sem esperança.
*
Se há um destino pessoal, não há nenhuma destinação superior ou, pelo menos, só existe uma, que ele julga fatal e desprezível. No mais, ele se tem como senhor de seus dias. Nesse instante sutil em que o homem se volta sobre sua vida, Sísifo, vindo de novo para seu rochedo, contempla essa sequência de atos sem nexo que se torna seu destino, criado por ele, unificado sob o olhar de sua memória e em breve selado por sua morte. Assim, convencido da origem toda humana de tudo o que é humano, cego que quer ver e que sabe que a noite não tem fim, ele está sempre caminhando. O rochedo continua a rolar.
 
Deixo Sísifo no sopé da montanha! Sempre se reencontra seu fardo. Mas Sísifo ensina a fidelidade superior que nega os deuses e levanta os rochedos. Ele também acha que tudo está bem. Esse universo doravante sem senhor não lhe parece nem estéril nem fútil. Cada um dos grãos dessa pedra, cada clarão mineral dessa montanha cheia de noite, só para ele forma um mundo. A própria luta em direção aos cimos é suficiente para preencher um coração humano. É preciso imaginar Sísifo feliz.

domingo, 12 de outubro de 2014

MÉTODO DA VISÃO DO ESQUELETO BRANCO — Chen Chiju

Imagine que um dedo de seu pé direito está infectado e tem uma ferida com uma inflamação. Aos poucos, essa inflamação se espalha pelo tornozelo, sobe até o joelho e chega à cintura. A mesma coisa acontece com sua outra perna. Progressivamente, a doença se estende da cintura à barriga, sobe pelo peito e e aos poucos atinge o pescoço e a cabeça. O seu corpo inteiro será destruído e só restará um esqueleto branco. Olhe esse esqueleto branco, parte por parte, cuidadosamente, com vagar e atenção. Pergunte a si mesmo: "Quem é esse esqueleto branco? Quem é a pessoa que olha esse esqueleto branco?" Separe sua existência real e absoluta do corpo e olhe as duas coisas como sendo diferentes. Então, aos poucos você verá o esqueleto branco distanciar-se de seu corpo, até ficar a quilômetros de distância. Você sentirá que esse esqueleto branco não lhe pertence de modo algum. Mantenha essa imagem na mente e pense em sua existência real e absoluta como sendo diferente da estrutura física e corpórea. Você pegou essa estrutura física e corpórea por empréstimo, para viver nela como hóspede; não pense que ela vai durar para sempre. Desse maneira, pode-se encarar a vida e a morte como a mesma entidade.

Lembre-se: é para esse esqueleto branco que você trabalha, em todos os sentidos, todas as horas de sua vida.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

A POBREZA NÃO É UMA DESGRAÇA (PROVÉRBIO 91) — Sr. Tut-Tut

A pobreza não é uma desgraça; a desgraça consiste na pobreza sem ambição. Uma posição humilde não é motivo para desprezo; o desprezo é merecido por alguém sem habilidade numa posição humilde. A velhice não é motivo para lamentação; lamentável é quem é velho, tendo vivido em vão. A morte não é motivo para tristeza; triste é quem morre sem ter beneficiado o mundo.

Sr. Tut-Tut, Cem Provérbios.
O texto acima foi traduzido da versão inglesa de Lin Yutang.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

PORTA DA CALAMIDADE E DA FELICIDADE

Não há nenhuma porta especial para a calamidade e a felicidade na vida humana; elas vêm de acordo com o apelo dos próprios homens. Suas recompensas seguem o bem e o mal como a sombra que acompanha um corpo.
Maldições e bênçãos não são limitadas a avenidas especiais, pelas quais elas caem do céu sobre o gênero humano. Não há nenhuma porta especial em nossas casas pelas quais elas entram; elas são independentes do espaço e vêm em resposta a nossas ações. Em outras palavras, não é um destino cego que dirige as maldições e as bênçãos, mas nós mesmos é que somos os autores de nosso destino.

Thâi-Shang, Tratado das Ações e de suas Retribuições.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

SOBRE OS BENEFÍCIOS DOS MALES — Nassim Nicholas Taleb

Nós nos beneficiamos, freqüentemente, dos males que outros nos causam; quase nunca dos males que causamos a nós mesmos.

O link abaixo leva ao original em inglês, entre outros aforismos do mesmo autor:
 

terça-feira, 7 de outubro de 2014

A ROSA - Rafael Barrett

A grande rosa aberta começa a desfolhar-se. Inclinada languidamente sobre a borda do vaso, desfaz com lento frenesi suas entranhas puríssimas, e uma a uma, no amplo silêncio do aposento, vão caindo suas pétalas trêmulas. Aquela, em quem se mesclaram os sucos tenebrosos da terra e o canto cristalino do firmamento, jaz aqui arrancada à sua pátria misteriosa; jaz prisioneira e moribunda, resplandecente como um troféu e banhada nos perfumes de sua agonia.
Morre, quer dizer, se desnuda. Vão caindo suas pétalas trêmulas; vão caindo as túnicas em torno de sua alma invisível. Nem mesmo o sol com tanto esplendor sucumbe. Nas cem asas da rosa que lentamente se inclinam e se abatem, palpita a neve inacessível da lua, e o rubor da alvorada, e o incêndio magnífico da aurora boreal. Pelas feridas da flor sangra beleza.
Esta rosa, mais bela ainda ao morrer que ao nascer, nos oferece com sua aparição discreta um suave ensinamento. Só viveu um dia; um dia lhe bastou para ocupar o mais nobre cume das coisas. Nós, os privados de beleza, vivemos, ai!, longo tempo. São-nos concedidos anos e anos para que nos procuremos às cegas e avancemos um passo. E esperamos que ao menos a morte nos dará um pouco mais do que nos deu a vida. Para que prolongaria a beleza sua visita a este mundo estranho? Não podemos suportar o espetáculo da beleza senão por breves momentos.
São os seres belos que nos falam de nosso destino. A flor se despede; fala-me do que me importa, porque é bela. Vai-se e não a compreendi. Desnuda por fim, sua alma se desvanece e foge. O crepúsculo se entretém em borrar as figuras e em reunir a solidão ao silêncio. Entre meus dedos cansados se desgarram as pétalas defuntas. Já não são um troféu resplandecente, mas os despojos de um sonho inútil.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

A INFELICIDADE É UM ERRO — Anatole France

É um grande erro ser desditoso, e é um erro imperdoável naqueles que estiveram antes numa posição invejável. Sua queda ao mesmo tempo nos vinga e nos lisonjeia, e somos inteiramente impiedosos.

Anatole France, O Crime de Sylvestre Bonnard, De 2 a 5 de Maio

sábado, 4 de outubro de 2014

ORAÇÃO DE SÃO FRANCISCO

A "Oração de São Francisco" foi publicada, pela primeira vez, por um padre francês, Esther Bouquerel, na revista La Clochette em dezembro de 1912. Só em 1927 foi associada a São Francisco de Assis.

O link para o texto da Wikipedia em francês é:

http://fr.wikipedia.org/wiki/Pri%C3%A8re_de_saint_Fran%C3%A7ois

Bela prece a rezar durante a Missa:

Senhor, fazei de mim um instrumento de vossa paz.
Onde haja ódio, que eu leve o amor.
Onde haja ofensa, que eu leve o perdão.
Onde haja discórdia, que eu leve a união.
Onde haja o erro, que eu leve a verdade.
Onde haja a dúvida, que eu leve a fé.
Onde haja o desespero, que eu leve a esperança.
Onde haja as trevas, que eu leve vossa luz.
Onde haja a tristeza, que eu leve a alegria.
Ó Mestre, que eu não busque tanto ser consolado como consolar, ser compreendido como compreender, ser amado como amar, pois é dando que se recebe, é esquecendo de si mesmo que se encontra, é perdoando que se é perdoado, é morrendo que se ressuscita para a vida eterna.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

BUSCA HOJE SER FELIZ — Omar Khayyam

Já que ignoras o que te reserva o dia de amanhã, busca hoje ser feliz.
Pega uma ânfora de vinho, senta-te à luz da lua e bebe,
enquanto murmuras que talvez amanhã a lua te procure em vão.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

O PODER DAS LIMITAÇÕES

"Eu fico tão entediada de compor com um violão, então eu componho com qualquer outro instrumento. [...] Eu fui em frente com um bandolim, um equipamento de jazz e apitos de lata, e percussão, é claro. Mas eu jurei nunca mais compor novamente só com um violão acústico - porque é tão enfadonho. Depois de compor um par de canções, o violão não lhe dá nada novo. Eu não posso tocar o bandolim, assim eu tive que imaginar um modo de tirar sons agradáveis dele. E as limitações da gente são muito mais excitantes do que saber tocar um instrumento eximiamente. Eu não tenho nenhum interesse em fazer isso.
 
Então você sempre se pressiona? 
 
Nem mesmo isso. Eu só não quero ser entediada por nada. Eu não quero estar tão habituada com qualquer coisa em que estou trabalhando a ponto de saber onde vai terminar: tipo - 'eu já sei fazer este número'. Isso não me manterá interessada por bastante tempo."

Da entrevista de Cathy Davey, State Magazine.
State Magazine é um site premiado da Web irlandesa.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

INDIGNAÇÃO CONTRA O VÍCIO BEM SUCEDIDO — Aristóteles

A Indignação contra o vício bem sucedido é um estado intermediário entre a Inveja e a Malevolência: todas as três se referem ao prazer e ao sofrimento gerados pelo que acontece ao vizinho: pois o homem que tem este sentimento correto fica aborrecido com o sucesso imerecido dos outros, enquanto o homem invejoso vai além e fica aborrecido com qualquer sucesso alheio, e as pessoas malévolas não apenas se aborrecem, mas ainda se alegram com o infortúnio alheio.

Aristóteles, Ética, Livro 2, 7, 7, 3

terça-feira, 30 de setembro de 2014

SOBRE A DESOLAÇÃO ESPIRITUAL — Inácio de Loyola

Chamo desolação todo o contrário da consolação, tal como escuridão na alma, perturbação, movimento para coisas baixas e terrenas, inquietação, com diferentes agitações e tentações, tendendo para a desconfiança, sem esperança, sem amor, quando a pessoa se encontra toda preguiçosa, destituída de entusiasmo, triste, e como que separada de seu Criador.
 
Em tempo de desolação nunca fazer mudanças; mas permanecer firme e constante nas resoluções e determinação em que estava antes do dia dessa desolação, ou na determinação da esperança e alegria anteriores. Porque, como na consolação é o espírito bom que nos guia e nos aconselha, assim na desolação nos aconselha o espírito mau, com cujos conselhos não podemos contar para para decidir justamente.
 
Inácio de Loyola, Exercícios Espirituais
Regras para Entender os Movimentos que Ocorrem na Alma
*****
Em outras palavras, quando a gente está pra baixo, nunca deve acreditar que a situação não tem saída. Nunca se deve agir baseado nas percepções derivadas da angústia e da tristeza.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

QUEM SOU EU? (A BODARRADA) — Luiz Gama

Quem sou eu? que importa quem?
Sou um trovador proscrito,
Que trago na fronte escrita
Esta palavra – “Ninguém!” –


Augusto Emílio Zaluar – “Dores e Flores”

Amo o pobre, deixo o rico,
Vivo como o Tico-tico;
Não me envolvo em torvelinho,
Vivo só no meu cantinho:
Da grandeza sempre longe
Como vive o pobre monge.
Tenho mui poucos amigos,
Porém bons, que são antigos,
Fujo sempre à hipocrisia,
À sandice, à fidalguia;
Das manadas de Barões?
Anjo Bento, antes trovões.
Faço versos, não sou vate,
Digo muito disparate,
Mas só rendo obediência
À virtude, à inteligência:
Eis aqui o Getulino
Que no plectro anda mofino.
Sei que é louco e que é pateta
Quem se mete a ser poeta;
Que no século das luzes,
Os birbantes mais lapuzes,
Compram negros e comendas,
Têm brasões, não – das Calendas,
E, com tretas e com furtos
Vão subindo a passos curtos;
Fazem grossa pepineira,
Só pela arte do Vieira,
E com jeito e proteções,
Galgam altas posições!
Mas eu sempre vigiando
Nessa súcia vou malhando
De tratante, bem ou mal,
Com semblante festival.
Dou de rijo no pedante
De pílulas fabricante,
Que blasona arte divina,
Com sulfatos de quinina,
Trabuzanas, xaropadas,
E mil outras patacoadas,
Que, sem pingo de rubor,
Diz a todos, que é DOUTOR!
Não tolero o magistrado,
Que do brio descuidado,
Vende a lei, trai a justiça,
– Faz a todos injustiça –
Com rigor deprime o pobre
Presta abrigo ao rico, ao nobre,
E só acha horrendo crime
No mendigo, que deprime.
– Neste dou com dupla força.
Té que a manha perca ou torça.
Fujo às léguas do lojista,
Do beato e do sacrista –
Crocodilos disfarçados,
Que se fazem muito honrados
Mas que, tendo ocasião,
São mais feros que o Leão.
Fujo ao cego lisonjeiro,
Que, qual ramo de salgueiro,
Maleável, sem firmeza,
Vive à lei da natureza;
Que, conforme sopra o vento,
Dá mil voltas num momento.
O que sou, e como penso,
Aqui vai com todo o senso,
Posto que já veja irados
Muitos lorpas enfunados,
Vomitando maldições,
Contra as minhas reflexões.
Eu bem sei que sou qual Grilo,
De maçante e mau estilo;
E que os homens poderosos
Desta arenga receosos
Hão de chamar-me tarelo,
Bode, negro, Mongibelo;
Porém eu que não me abalo,
Vou tangendo o meu badalo
Com repique impertinente,
Pondo a trote muita gente.
Se negro sou, ou sou bode
Pouco importa. O que isto pode?
Bodes há de toda a casta,
Pois que a espécie é muito vasta...
Há cinzentos, há rajados,
Baios, pampas e malhados,
Bodes negros, bodes brancos,
E, sejamos todos francos,
Uns plebeus, e outros nobres,
Bodes ricos, bodes pobres,
Bodes sábios, importantes,
E também alguns tratantes...
Aqui, nesta boa terra,
Marram todos, tudo berra;
Nobres Condes e Duquesas,
Ricas Damas e Marquesas
Deputados, senadores,
Gentis-homens, veadores;
Belas Damas emproadas,
De nobreza empantufadas;
Repimpados principotes,
Orgulhosos fidalgotes,
Frades, Bispos, Cardeais,
Fanfarrões imperiais,
Gentes pobres, nobres gentes,
Em todos há meus parentes.
Entre a brava militança
Fulge e brilha alta bodança;
Guardas, Cabos, Furriéis,
Brigadeiros, Coronéis,
Destemidos Marechais,
Rutilantes Generais,
Capitães-de-mar-e-guerra,
– Tudo marra, tudo berra –
Na suprema eternidade,
Onde habita a Divindade,
Bodes há santificados,
Que por nós são adorados.
Entre o coro dos Anjinhos
Também há muitos bodinhos. –
O amante de Siringa
Tinha pelo e má catinga;
O deus Mendes, pelas costas,
Na cabeça tinha pontas;
Jove quando foi menino,
Chupitou leite caprino;
E, segundo o antigo mito,
Também Fauno foi cabrito.
Nos domínios de Plutão,
.........................................
Nos lundus e nas modinhas
São cantadas as bodinhas:
Pois se todos têm rabicho,
Para que tanto capricho?
Haja paz, haja alegria,
Folgue e brinque a bodaria;
Cesse pois a matinada,
Porque tudo é bodarrada!
veador – aquele que caçava nos montes; monteiro.
arte do Vieira – sermão do padre Antônio Vieira contra os ladrões, chamado “A arte de furtar”.

domingo, 28 de setembro de 2014

MACHISMO

Tudo o que os homens escreveram sobre as mulheres deve ser suspeito, pois eles são, a um tempo, juiz e parte.

Poulain de la Barre, citado por Simone de Beauvoir, em Segundo Sexo, 1

sábado, 27 de setembro de 2014

CRIMES DE PAIXÃO E CRIMES DE LÓGICA — Albert Camus

Há crimes de paixão e crimes de lógica. A fronteira que os separa é incerta. Mas o código penal distingue um do outro, bastante comodamente, pela premeditação. Estamos na época da premeditação e do crime perfeito. Nossos criminosos não são mais aquelas crianças desarmadas que invocavam a desculpa do amor. São, ao contrário, adultos, e seu álibi é irrefutável: é a filosofia que pode servir para tudo, até mesmo para transformar assassinos em juízes.
 
Albert Camus, O Homem Revoltado, Introdução

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

ENCARANDO O MUNDO — Chang Ch'ao

Só quem encara, sossegadamente, aquilo com que se preocupam as pessoas do mundo é que pode se preocupar com aquilo que as pessoas do mundo encaram sossegadamente.