Je ne fay rien sans gayeté

Eu não faço nada sem alegria

Montaigne, Les Essais - Livre II, Chapitre 10.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

A ROSA - Rafael Barrett

A grande rosa aberta começa a desfolhar-se. Inclinada languidamente sobre a borda do vaso, desfaz com lento frenesi suas entranhas puríssimas, e uma a uma, no amplo silêncio do aposento, vão caindo suas pétalas trêmulas. Aquela, em quem se mesclaram os sucos tenebrosos da terra e o canto cristalino do firmamento, jaz aqui arrancada à sua pátria misteriosa; jaz prisioneira e moribunda, resplandecente como um troféu e banhada nos perfumes de sua agonia.
Morre, quer dizer, se desnuda. Vão caindo suas pétalas trêmulas; vão caindo as túnicas em torno de sua alma invisível. Nem mesmo o sol com tanto esplendor sucumbe. Nas cem asas da rosa que lentamente se inclinam e se abatem, palpita a neve inacessível da lua, e o rubor da alvorada, e o incêndio magnífico da aurora boreal. Pelas feridas da flor sangra beleza.
Esta rosa, mais bela ainda ao morrer que ao nascer, nos oferece com sua aparição discreta um suave ensinamento. Só viveu um dia; um dia lhe bastou para ocupar o mais nobre cume das coisas. Nós, os privados de beleza, vivemos, ai!, longo tempo. São-nos concedidos anos e anos para que nos procuremos às cegas e avancemos um passo. E esperamos que ao menos a morte nos dará um pouco mais do que nos deu a vida. Para que prolongaria a beleza sua visita a este mundo estranho? Não podemos suportar o espetáculo da beleza senão por breves momentos.
São os seres belos que nos falam de nosso destino. A flor se despede; fala-me do que me importa, porque é bela. Vai-se e não a compreendi. Desnuda por fim, sua alma se desvanece e foge. O crepúsculo se entretém em borrar as figuras e em reunir a solidão ao silêncio. Entre meus dedos cansados se desgarram as pétalas defuntas. Já não são um troféu resplandecente, mas os despojos de um sonho inútil.

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