Je ne fay rien sans gayeté

Eu não faço nada sem alegria

Montaigne, Les Essais - Livre II, Chapitre 10.

sábado, 15 de novembro de 2014

O CEGO E AS UVAS — Trecho de A Vida de Lazarillo de Tormes

Aconteceu que, chegando a um lugar que chamam Almoroz na época em que colhiam as uvas, um vindimador lhe deu um racimo delas em esmola. E como os cestos costumam estar desgastados, e também porque a uva naquela ocasião está muito madura, os bagos do racimo se soltavam em sua mão. Se fosse guardado no saco de provisões virava suco e molhava tudo lá dentro.
Concordou em fazer um banquete, tanto por não poder levar as uvas como para me agradar, pois naquele dia tinha me dado muitos trompaços e golpes. Sentamos numa cerca e ele disse:
"Agora quero ser generoso contigo, de modo que nós dois comamos este racimo de uvas, e que comas tanto dele como eu. Vamos dividi-lo desta maneira: tu pegarás uma vez e eu outra; desde que me prometas não pegar mais de uma a cada vez. Farei o mesmo até que acabemos com ele, e deste jeito não haverá engano."
Feito assim o acordo, começamos; mas logo no segundo lance o traidor mudou de propósito e começou a pegar de duas em duas, pensando que eu devia estar fazendo o mesmo. Como vi que ele quebrava o trato, não me contentei em agir como ele, mas ainda passava na frente: duas a duas, três a três, e como podia as comia. Acabado o racimo, esteve um pouco com o bagaço na mão e, meneando a cabeça, disse:
"Lázaro, me enganaste. Jurarei diante de Deus que comeste as uvas de três em três."
"Não comi — disse eu — mas por que suspeitais isso?"
Respondeu o sagacíssimo cego:
"Sabes como vejo que as comeste de três em três? É que eu comia de duas em duas e não reclamaste."
Ao que não respondi. Ri comigo mesmo e, embora inexperiente, admirei muito o raciocínio arguto do cego.

A Vida de Lazarillo de Tormes e de suas Fortunas e Adversidades, de autor desconhecido. Publicada em 1554. Foi o primeiro romance picaresco e é o modelo do gênero.

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