Je ne fay rien sans gayeté

Eu não faço nada sem alegria

Montaigne, Les Essais - Livre II, Chapitre 10.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

SOBRE A DESOLAÇÃO ESPIRITUAL — Inácio de Loyola

Chamo desolação todo o contrário da consolação, tal como escuridão na alma, perturbação, movimento para coisas baixas e terrenas, inquietação, com diferentes agitações e tentações, tendendo para a desconfiança, sem esperança, sem amor, quando a pessoa se encontra toda preguiçosa, destituída de entusiasmo, triste, e como que separada de seu Criador.
 
Em tempo de desolação nunca fazer mudanças; mas permanecer firme e constante nas resoluções e determinação em que estava antes do dia dessa desolação, ou na determinação da esperança e alegria anteriores. Porque, como na consolação é o espírito bom que nos guia e nos aconselha, assim na desolação nos aconselha o espírito mau, com cujos conselhos não podemos contar para para decidir justamente.
 
Inácio de Loyola, Exercícios Espirituais
Regras para Entender os Movimentos que Ocorrem na Alma
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Em outras palavras, quando a gente está pra baixo, nunca deve acreditar que a situação não tem saída. Nunca se deve agir baseado nas percepções derivadas da angústia e da tristeza.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

QUEM SOU EU? (A BODARRADA) — Luiz Gama

Quem sou eu? que importa quem?
Sou um trovador proscrito,
Que trago na fronte escrita
Esta palavra – “Ninguém!” –


Augusto Emílio Zaluar – “Dores e Flores”

Amo o pobre, deixo o rico,
Vivo como o Tico-tico;
Não me envolvo em torvelinho,
Vivo só no meu cantinho:
Da grandeza sempre longe
Como vive o pobre monge.
Tenho mui poucos amigos,
Porém bons, que são antigos,
Fujo sempre à hipocrisia,
À sandice, à fidalguia;
Das manadas de Barões?
Anjo Bento, antes trovões.
Faço versos, não sou vate,
Digo muito disparate,
Mas só rendo obediência
À virtude, à inteligência:
Eis aqui o Getulino
Que no plectro anda mofino.
Sei que é louco e que é pateta
Quem se mete a ser poeta;
Que no século das luzes,
Os birbantes mais lapuzes,
Compram negros e comendas,
Têm brasões, não – das Calendas,
E, com tretas e com furtos
Vão subindo a passos curtos;
Fazem grossa pepineira,
Só pela arte do Vieira,
E com jeito e proteções,
Galgam altas posições!
Mas eu sempre vigiando
Nessa súcia vou malhando
De tratante, bem ou mal,
Com semblante festival.
Dou de rijo no pedante
De pílulas fabricante,
Que blasona arte divina,
Com sulfatos de quinina,
Trabuzanas, xaropadas,
E mil outras patacoadas,
Que, sem pingo de rubor,
Diz a todos, que é DOUTOR!
Não tolero o magistrado,
Que do brio descuidado,
Vende a lei, trai a justiça,
– Faz a todos injustiça –
Com rigor deprime o pobre
Presta abrigo ao rico, ao nobre,
E só acha horrendo crime
No mendigo, que deprime.
– Neste dou com dupla força.
Té que a manha perca ou torça.
Fujo às léguas do lojista,
Do beato e do sacrista –
Crocodilos disfarçados,
Que se fazem muito honrados
Mas que, tendo ocasião,
São mais feros que o Leão.
Fujo ao cego lisonjeiro,
Que, qual ramo de salgueiro,
Maleável, sem firmeza,
Vive à lei da natureza;
Que, conforme sopra o vento,
Dá mil voltas num momento.
O que sou, e como penso,
Aqui vai com todo o senso,
Posto que já veja irados
Muitos lorpas enfunados,
Vomitando maldições,
Contra as minhas reflexões.
Eu bem sei que sou qual Grilo,
De maçante e mau estilo;
E que os homens poderosos
Desta arenga receosos
Hão de chamar-me tarelo,
Bode, negro, Mongibelo;
Porém eu que não me abalo,
Vou tangendo o meu badalo
Com repique impertinente,
Pondo a trote muita gente.
Se negro sou, ou sou bode
Pouco importa. O que isto pode?
Bodes há de toda a casta,
Pois que a espécie é muito vasta...
Há cinzentos, há rajados,
Baios, pampas e malhados,
Bodes negros, bodes brancos,
E, sejamos todos francos,
Uns plebeus, e outros nobres,
Bodes ricos, bodes pobres,
Bodes sábios, importantes,
E também alguns tratantes...
Aqui, nesta boa terra,
Marram todos, tudo berra;
Nobres Condes e Duquesas,
Ricas Damas e Marquesas
Deputados, senadores,
Gentis-homens, veadores;
Belas Damas emproadas,
De nobreza empantufadas;
Repimpados principotes,
Orgulhosos fidalgotes,
Frades, Bispos, Cardeais,
Fanfarrões imperiais,
Gentes pobres, nobres gentes,
Em todos há meus parentes.
Entre a brava militança
Fulge e brilha alta bodança;
Guardas, Cabos, Furriéis,
Brigadeiros, Coronéis,
Destemidos Marechais,
Rutilantes Generais,
Capitães-de-mar-e-guerra,
– Tudo marra, tudo berra –
Na suprema eternidade,
Onde habita a Divindade,
Bodes há santificados,
Que por nós são adorados.
Entre o coro dos Anjinhos
Também há muitos bodinhos. –
O amante de Siringa
Tinha pelo e má catinga;
O deus Mendes, pelas costas,
Na cabeça tinha pontas;
Jove quando foi menino,
Chupitou leite caprino;
E, segundo o antigo mito,
Também Fauno foi cabrito.
Nos domínios de Plutão,
.........................................
Nos lundus e nas modinhas
São cantadas as bodinhas:
Pois se todos têm rabicho,
Para que tanto capricho?
Haja paz, haja alegria,
Folgue e brinque a bodaria;
Cesse pois a matinada,
Porque tudo é bodarrada!
veador – aquele que caçava nos montes; monteiro.
arte do Vieira – sermão do padre Antônio Vieira contra os ladrões, chamado “A arte de furtar”.

domingo, 28 de setembro de 2014

MACHISMO

Tudo o que os homens escreveram sobre as mulheres deve ser suspeito, pois eles são, a um tempo, juiz e parte.

Poulain de la Barre, citado por Simone de Beauvoir, em Segundo Sexo, 1

sábado, 27 de setembro de 2014

CRIMES DE PAIXÃO E CRIMES DE LÓGICA — Albert Camus

Há crimes de paixão e crimes de lógica. A fronteira que os separa é incerta. Mas o código penal distingue um do outro, bastante comodamente, pela premeditação. Estamos na época da premeditação e do crime perfeito. Nossos criminosos não são mais aquelas crianças desarmadas que invocavam a desculpa do amor. São, ao contrário, adultos, e seu álibi é irrefutável: é a filosofia que pode servir para tudo, até mesmo para transformar assassinos em juízes.
 
Albert Camus, O Homem Revoltado, Introdução

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

ENCARANDO O MUNDO — Chang Ch'ao

Só quem encara, sossegadamente, aquilo com que se preocupam as pessoas do mundo é que pode se preocupar com aquilo que as pessoas do mundo encaram sossegadamente.