Je ne fay rien sans gayeté

Eu não faço nada sem alegria

Montaigne, Les Essais - Livre II, Chapitre 10.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

SOLITÁRIO — Paul Éluard

Man Ray - As Mãos Livres, Ilustradas pelos Poemas de Paul Éluard
 
SOLITÁRIO
 
Eu teria podido viver sem ti
Viver só

Quem fala
Quem pode viver só
Sem ti
Quem

Ser apesar de tudo
Ser apesar de si

A noite já vai longe

Como um bloco de cristal
Eu me dissolvo na noite

Paul Éluard, As Mãos Livres.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

O ÚLTIMO DIA DO ANO NÃO É O ÚLTIMO DIA DO TEMPO — Carlos Drummond de Andrade

PASSAGEM DO ANO

O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com
[sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouviras o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...
Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.
O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles... e nenhum resolve.
Surge a manhã de um novo ano.
As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.

A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

A TODOS OS AMIGOS
DESEJO SUCESSO, SAÚDE E ALEGRIA,
HOJE, AMANHÃ E SEMPRE.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

O RUÍDO DAS VAGAS — Pierre Reverdy

O RUÍDO DAS VAGAS

Todas as ondas das marinhas da parede poderiam fluir nos pratos, com o alvaiade espumante das vagas.

O fundo permaneceria sempre azul, por trás do sol muito brilhante da moldura.

Na casa, bastante calma num tempo assim, cada um se virou para saber de onde vinha este ruído, este movimento.

Pois ninguém sabia do segredo, exceto aquele cujo olho inquieto não deixava mais o quadrado branco da janela e, nas cortinas levantadas por seu peito comovido, aquele que não tinha vindo senão para ver e não ser visto.

Pierre Reverdy, in Estrelas Pintadas, 1921.

domingo, 28 de dezembro de 2014

DAS FRUTAS EM CINCO TEMPOS — Filinto Elísio Correia e Silva

DAS FRUTAS EM CINCO TEMPOS
3


As frutas, uma a uma, darão suas entranhas à boca
O roçar leve de língua ao gosto de todas as coisas,
As frutas saberão trazer do antanho nossas memórias
Em paraísos de proibir nas árvores todo o proibido.

Uma a uma, não nos poderemos delas jamais apartar,
Sílabas poderosas no ulterior dos verbos acamados
Nos leitos de horizontes surgidos do útero da baía
E nas janelas abertas para o império dos sentidos.

De quantas frutas somos benditos no ventre das vontades,
Quantas lágrimas, suores e sêmenes, vagidos de nada,
A esventrar a espessura de tudo ser mais prima matéria.

Ajoelhados ante o silêncio, soletraremos ao infinito
O que desta idade temos ainda de eterna saudade
E entoaremos, de sussurros tão-somente, o hino às frutas.

Filinto Elísio Correia e Silva, em Cabo Verde: Antologia de Poesia Contemporânea, 2011.
Revista África e Africanidades - Ano IV - n. 13 – Maio. 2011 – ISSN 1983-2354

sábado, 27 de dezembro de 2014

SONETO DE ARVERS — Alphonsus de Guimaraens

O seu mistério tem minh'alma desgraçada:
Um sempiterno amor, nascido num momento;
É sem esp'rança o mal, calá-lo em mim eu tento,
E aquela que o causou inda não sabe nada.

Eu tenho já passado ao pé da minha amada,
Nunca vi seu olhar formoso em mim atento...
Sem nada receber e nem ousar, eu, lento,
Na terra viverei co'a alma desolada.

E a diva, a quem Deus fez suave e enternecida,
Irá pelo caminho andando, distraída,
E este arrulho de amor ela não ouvirá.

Fiel ao seu dever, a minha amante bela
Dirá, lendo o soneto inspirado por ela:
— Esta mulher quem é? — e nada saberá.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

A PESSOA VERDADEIRA DOS TEMPOS ANTIGOS — Zhuangzi

A pessoa verdadeira dos tempos antigos poderia dormir sem sonhar, poderia despertar sem ansiedade, poderia se alimentar sem gula, e poderia encher seus pulmões completamente ao respirar. Uma verdadeira pessoa respirava até o ar chegar a seus calcanhares, enquanto a respiração de outras pessoas só enche o topo de seus pulmões.
Esses, que se agacham em submissão, parecem expelir palavras adiante de suas bocas como vômito. Esses, que abrigam velhos desejos no mais profundo de si mesmos, deixam só um espaço raso para os céus manobrarem.
A pessoa verdadeira dos tempos antigos não estava ciente de expressar alegria em relação à vida, nem de expressar sentimento de  aversão em relação à morte. Ele não sentia necessidade de ser cortês quando partia, nem sentia necessidade de ser indiferente ao chegar. Ele poderia partir tão rapidamente quanto chegava, e não havia nada de mais nisto. Ele não se esquecia de onde começou, mas não questionava onde terminaria. Ele celebrava o que foi recebido, e recapturava o que tinha sido esquecido. Isto é chamado não usar a mente para contribuir com o Dao, e não usar pessoas para ajudar os céus. Isso é que se chamava uma pessoa verdadeira.
Sendo tal, o coração dele era adaptável, sua aparência não era agitada, sua testa não era enrugada. Com uma frieza igual à do outono e um calor igual ao da primavera, alegria e raiva fluíam por ele como as quatro estações. Ele achava satisfação em todas as coisas e não pensava sobre quando ele alcançaria o pináculo.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

domingo, 21 de dezembro de 2014

O PERFUME DA NOITE — Orfeu [Hino 2]

Eu te invoco, ó deusa que geras os deuses e os homens. A noite é o princípio de todas as coisas. Escuta-me, grande deusa, umas vezes velada pela obscuridade, outras coberta por um brilhante manto de estrelas. Amas os lugares habitados pelo sono silencioso e pela agradável preguiça; boa deusa que te comprazes nos festins, a mãe dos sonhos — inimigos de todas as inquietações — e do repouso, a mais tranquila de todas as coisas. Amiga de todos, precedida pelo crepúsculo, habitas alternadamente a terra e o céu; vens do Tártaro e retornas ao Orco caçando diante de ti a luz, pois as leis eternas das coisas a isso te obrigam irrevogavelmente. Sê presente a nossos cantos, ó venerável deusa amada por todos, escuta as humildes preces dos que te suplicam; deusa, vem a nós afugentando as imagens incertas do crepúsculo.

sábado, 20 de dezembro de 2014

SEJA FELIZ

Hoje desejo, a todos, realização de suas capacidades mais profundas.
Agradeço a presença. 
Um abraço.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

MANHÃ — Rimbaud

Tive certa vez uma juventude amável, heroica, fabulosa, digna de ser escrita em letras de ouro — sorte demais! Que crime, que erro me fez merecer minha fraqueza atual? Vós que afirmais que animais exalam soluços de pesar, que os enfermos desesperam, que os mortos têm pesadelos, tratai de relatar meu sonho e minha queda. Por mim, não consigo me explicar melhor do que o faz o mendigo com seus contínuos pai-nossos e ave-marias. Já não sei falar!

Não obstante, hoje, creio ter acabado a narração de meu inferno. Era realmente o inferno: o antigo, do qual o filho do homem abriu as portas.

Desde o mesmo deserto, na mesma noite, meus olhos cansados se abrem sempre para a mesma estrela de prata, sempre, sem que se comovam os Reis da vida, os três magos, o coração, a alma, o espírito. Quando iremos mais além das praias e dos montes, para saudar o nascimento do novo trabalho, da nova sabedoria, a fuga dos tiranos e dos demônios, o fim da superstição, para adorar — os primeiros! — a Natividade sobre a terra!

A canção dos céus, a marcha dos povos! Escravos, não amaldiçoemos a vida.

Rimbaud, Uma Temporada no Inferno.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

ODE A LEUCÓNOE — Horácio

Mais uma.

Não procures saber, contra a vontade dos deuses, que prazo eles fixaram a meus dias e aos teus, Leucónoe; e não o pergunte mais aos cálculos dos astrólogos. Pois é muito melhor esperar e se submeter ao destino!
Deixa que Júpiter aumente ainda teus anos, ou que limite seu curso a este inverno tempestuoso, que mói as vagas contra as barreiras de rochedos; sê sábia, decanta teus vinhos, e põe tua esperança na medida da curta duração da vida.
Enquanto falamos, o tempo ciumento fugiu: colhe a flor do dia e não creias no amanhã.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

PERFUME DA MORTE - Orfeu [Hino 83]

Escuta-me, rainha de todos os homens, quanto mais concedes tempo à sua Vida, mais deles te aproximas. Tu matas os corpos e as almas por um sono eterno; tu rompes os laços da natureza humana e fechas eternamente os olhos dos homens. És comum a todos, e quebras com um fim rápido as flores mais encantadoras. É em ti que todas as coisas se resolvem. Tu não te deixas dobrar nem por súplicas nem por promessas. Abençoada e terrível, não venhas a nós senão bem tarde, nós te imploramos com sacrifícios piedosos, e conceda aos homens uma longa e feliz velhice.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

LINDA, VAMOS VER SE A ROSA — Ronsard

Rosa Pierre de Ronsard, criada por Francis Meilland.
 
 
A CASSANDRA

Linda, vamos ver se a rosa
Que esta manhã abriu
Sua veste púrpura ao sol,
Não perdeu no entardecer
As dobras da veste púrpura,
E seu matiz ao vosso igual.

Ah! vede como em pouco tempo,
Ela por todo lado, Linda,
As belezas deixou cair!
Ó Natureza, cruel madrasta,
Pois que uma tal flor não dura
Senão da manhã à tarde!

Se, então, me credes, Linda,
Enquanto vossa idade floresce
Em sua mais fresca novidade,
Colhei, colhei vossa mocidade:
Como a essa flor a velhice
Fará murchar vossa beleza.
   
Ronsard, Odes, I, 17

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

O MATIZ DA FLOR FOI LAVADO — Komachi Ono

O matiz da flor foi lavado  
Por tempestades de chuva; 
Meus encantos, que antes valorizei tanto, 
Também estão diminuindo.
Ambos floresceram, ai! em vão.

domingo, 14 de dezembro de 2014

É TÃO GENTIL E TÃO HONESTO O AR — Dante

É tão gentil e tão honesto o ar
Da minha Dama, sempre que aparece
E a outrem saúda, que ante ela emudece
Toda língua, e ninguém ousa falar.

Ela se vai sentindo-se louvar,
Vestida de humildade, e até parece
Coisa que lá do Céu à terra desce
A fim de a todos maravilhar.

Mostra-se tão graciosa a quem a mira,
Que nos filtra através do olhar no seio,
Um dulçor que só entende quem o prova.

Parece que do seu lábio se mova
Um suspiro suave, de amor cheio,
Que vai dizendo a toda alma: suspira.

Tradução de Arduíno Bolivar.

sábado, 13 de dezembro de 2014

A CASA DO CORAÇÃO — Friedrich Rückert

O coração tem dois quartos:
Moram ali, sem se ver,
Num a Dor, noutro o Prazer.

Quando o Prazer no seu quarto
Acorda cheio de ardor,
No seu, adormece a Dor...

Cuidado, Prazer! Cautela,
Canta e ri mais devagar...
Não vá a Dor acordar...

Tradução de Antero de Quental.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

VENENO — Baudelaire

O VENENO (AS FLORES DO MAL)

Veste o vinho a mais sórdida palhoça
De um luxo milagroso:
E no oiro de um vapor rubro, que engrossa,
Faz surgir mais de um pórtico, que roça,
Como um sol, que descamba, um céu nevoso.

Dilata o ópio o ciclo do impossível:
Alonga o ilimitado;
Afunda o tempo, e o gozo inexcedível;
E de um morno prazer, negro, terrível
A alma encharca, inda além do que lhe é dado

E nada disto vale o tóxico horrendo,
Que teus olhos destilam,
Lago amargo, em que cai a alma tremendo:
Abismo, em que meus sonhos, que cintilam,
Como em verde lagoa, estão bebendo.

Não vale nada a baba de tua boca,
Que tem prodígio enorme:
Aí sem pena uma alma se sufoca:
Aí no olvido esmaia, e inerme toca;
E a morte acha-a na lama, em que ela dorme...

Tradução de Luiz Delfino.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

SE ME QUERES A TEUS PÉS AJOELHADO — Gonçalves Dias

LIRA

Se me queres a teus pés ajoelhado,
Ufano de me ver por ti rendido,
Ou já em mudas lágrimas banhado;
Volve, impiedosa,
Volve-me os olhos;
Basta uma vez!

Se me queres de rojo sobre a terra,
Beijando a fímbria dos vestidos teus,
Calando as queixas que meu peito encerra,
Dize-me, ingrata,
Dize-me: eu quero!
Basta uma vez!

Mas se antes folgas de me ouvir na lira
Louvor singelo dos amores meus,
Por que minha alma há tanto em vão suspira;
Dize-me, ó bela,
Dize-me: eu te amo!
Basta uma vez!

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

ESTOU NO HOSPÍCIO (O PAVILHÃO E A PINEL) — Lima Barreto

1920
4 de Janeiro

O Pavilhão e a Pinel - Lima Barreto
Estou no Hospício ou, melhor, em várias dependências dele, desde o dia 25 do mês passado.
Estive no pavilhão de observações, que é a pior etapa de quem, como eu, entra para aqui pelas mãos da polícia.
Tiram-nos a roupa que trazemos e dão-nos uma outra, só capaz de cobrir a nudez, e nem chinelos ou tamancos nos dão. Da outra vez que lá estive me deram essa peça do vestuário que me é hoje indispensável. Desta vez, não. O enfermeiro antigo era humano e bom; o atual é um português (o outro o era) arrogante, com uma fisionomia bragantina e presumida. Deram-me uma caneca de mate e, logo em seguida, ainda dia claro, atiraram-me sobre um colchão de capim com uma manta pobre, muito conhecida de toda a nossa pobreza e miséria.
Não me incomodo muito com o hospício, mas o que me aborrece é essa intromissão da polícia na minha vida. De mim para mim, tenho certeza que não sou louco, mas devido ao álcool, misturado com toda a espécie de apreensões que as dificuldades de minha vida material há 6 anos me assoberbam, de quando em quando dou sinais de loucura : deliro.
Além dessa primeira vez que estive no hospício, fui atingido por crise idêntica, em Ouro Fino, e levado para a Santa Casa de lá, em 1916; em 1917, recolheram-me ao Hospital Central do Exército, pela mesma razão; agora, volto ao hospício.
Estou seguro que não voltarei a ele pela terceira vez; senão, saio dele para o São João Batista, que é próximo. Estou incomodando muito os outros, inclusive os meus parentes. Não é justo que tal continue. Quanto aos meus amigos, nenhum apareceu, senão o senhor Carlos Ventura e o sobrinho.
Este senhor Carlos Ventura é um velho homem, tem uma venda na Rua Piauí, em Todos os Santos, fornece para a nossa casa, e foi com auxílio dele que me conseguiram laçar e trazer-me até ao hospício. Acompanharam-me o Alípio e o Jorge.
Passei a noite de 25 no pavilhão, dormindo muito bem, pois a de 24 tinha passado em claro, errando pelos subúrbios, em pleno delírio.
Amanheci, tomei café e pão e fui à presença de um médico, que me disseram chamar-se Adauto .Tratou-me ele com indiferença, fez-me perguntas e deu a entender que, por ele, me punha na rua.
Voltei para o pátio. Que coisa, meu Deus! Estava ali que nem um peru, no meio de muitos outros, pastoreado por um bom português, que tinha um ar rude, mas doce e compassivo, de camponês transmontano. Ele já me conhecia da outra vez. Chamava-me você e me deu cigarros. Da outra vez, fui para a casa-forte e ele me fez baldear a varanda, lavar o banheiro, onde me deu um excelente banho de ducha de chicote. Todos nós estávamos nus, as portas abertas, e eu tive muito pudor. Eu me lembrei do banho de vapor de Dostoievski, na Casa dos Mortos. Quando baldeei, chorei; mas lembrei de Cervantes, do próprio Dostoievski, que pior deviam ter sofrido em Argel e na Sibéria.
Ah! A Literatura ou me mata ou me dá o que eu peço dela.

Anotações para O Cemitério dos Vivos, Capítulo 1 (1ª Parte).

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

RUBAYAT 04 — Omar Khayyam

Age de maneira que teu próximo não tenha que suportar tua sabedoria.
Domina-te sempre a ti mesmo. Nunca cedas à cólera.
Se te queres encaminhar para a paz definitiva, sorri ao Destino que te bate,
e não batas em pessoa nenhuma.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

SENSAÇÃO — Rimbaud

Irei, quando a tarde cante, azul, no verão,
ferido pelo trigo, a pisar a pradaria;
sonhador, sentirei seu frescor nas plantas dos pés
e deixarei que o vento me banhe a cabeça.
Sem falar, sem pensar, irei pelos caminhos:
mas o amor sem limites me brotará na alma.
Irei longe, ditoso, como com uma moça,
pelos campos, tão longe como vagueia o cigano.

domingo, 7 de dezembro de 2014

LEI DO POEMA — Julio Cortázar

Amargo preço do poema,
as nove sílabas do verso;
uma de mais ou uma de menos
alçam-no ao ar ou o condenam.

Somos o xadrez de um rio,
o naipe sempre entre dois lumes;
caem as caras e as cruzes*
a cada curva do caminho.

Cai no verso a palavra,
na lembrança chove o pranto,
cai a noite, cai o pássaro,
tudo é queda amortecida.

Oh! liberdade de não ser livre,
lance de dados que desata
a sigilosa teia de aranha
de encruzilhadas e limites!

Como tua boca na maçã,
como minhas mãos em teus seios,
irá a mariposa ao fogo
para dançar sua última dança.

* caras e cruzes — corresponde ao jogo de cara e coroa.

Uma tradução em prosa, apenas imitando as linhas dos versos originais.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

O PASTOR APAIXONADO À SUA AMADA — Christopher Marlowe

Vem viver comigo e ser meu amor
E todos os prazeres desfrutar
Que montes e vales, várzeas e campos,
Bosques ou íngremes montanhas dão.

E vamos sentar sobre as rochas,
Vendo os pastores alimentar os rebanhos
Ao lado de rasos rios a cujas cascatas
Melodiosas aves cantam madrigais.

E para ti faremos leitos de rosas
E um milhar de cheirosos ramalhetes,
Uma taça de flores e uma túnica
Bordada toda com folhas de murta.

Um vestido feito da mais fina lã
Que de nossos lindos cordeiros aparamos;
Chinelos bem forrados para o frio,
Com fivelas do mais puro ouro.

Um cinto de palha e brotos de hera,
Com ganchos de coral e de âmbar cravejado;
E se estes prazeres podem te comover,
Venha viver comigo e ser meu amor.

Os jovens pastores dançarão e cantarão
Para teu deleite cada manhã de maio:
Se estes encantos tua mente podem comover,
Então vive comigo, e sê meu amor.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

BEBENDO SOZINHO COM A LUA — Li Bai

De um pote de vinho entre as flores
Eu bebi só. Não tinha ninguém comigo —
Até que, elevando minha taça, pedi à luminosa lua
Para trazer minha sombra e nos tornar três.
Ai! A lua não foi capaz de beber
E minha sombra me perseguiu vagamente;
Mas pelo menos durante algum tempo tive estes amigos
Para me alegrar pelo fim de primavera...
Eu cantei. A lua me encorajou.
Eu dancei. Minha sombra cambaleou atrás de mim.
Pelo visto, nós éramos alegres companheiros.
E então eu estava bêbado, e nós nos perdemos.
A benevolência estará sempre segura?
Eu olho a longa estrada do Rio de Estrelas.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

CHUVA — Po Chu-i

Desde que, forasteiro, moro na cidade de Hsun-yang,
Hora após hora a amarga chuva se derramou.
Por poucos dias o céu escuro clareou;
Num sono indiferente desperdicei muito tempo. 
O lago alargou até quase se unir ao céu;
As nuvens afundam até tocar a face da água. 
Além de minha cerca ouço a conversa dos barqueiros; 
No fim da rua ouço a canção do pescador. 
Pássaros nublados estão perdidos no ar amarelo; 
Velas enfunadas chutam as ondas brancas. 
Na frente de meu portão o caminho da carruagem e do cavalo
Numa única noite se transformou num leito de rio.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

ENQUANTO INDA DE ROSA E LÍRIO CHEIA — Garcilaso de la Vega

Enquanto inda de rosa e lírio cheia
Se mostra a cor do vosso lindo gesto,
E o vosso luminoso olhar honesto
O coração abrasa, e o refreia;

Enquanto esse cabelo, que na veia
Do ouro colhido foi, com voo lesto,
Por vosso branco colo manifesto,
O vento move, desordena e ondeia;

Colhei da vossa alegre primavera
O doce fruto, antes que o tempo irado
De neve cubra já o altivo cume.

Matará o frio a rosa passageira,
Mudará tudo o tempo arrebatado,
Para não alterar o seu costume.