Je ne fay rien sans gayeté

Eu não faço nada sem alegria

Montaigne, Les Essais - Livre II, Chapitre 10.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

EXAME PARA O POSTO DE ANJO DA GUARDA — Songling Pu

O avô do marido de minha irmã mais velha, chamado Tao Sung, era um bacharel. Um dia, enquanto estava deitado por causa de uma indisposição, um mensageiro oficial chegou, trazendo a notificação usual na mão e conduzindo um cavalo com uma testa branca, para levá-lo ao exame do grau de mestre. O Sr. Sung então comentou que o Examinador Principal ainda não tinha vindo, e perguntou por que deveria haver tanta pressa. O mensageiro não respondeu a isto, mas o pressionou com tanta gravidade que por fim o Sr. Sung se ergueu e, montando no cavalo, cavalgou com ele. O caminho parecia estranho, mas depois eles chegaram a uma cidade que se assemelhava à capital de um príncipe.

Eles entraram no palácio do Prefeito, cujos aposentos estavam graciosamente enfeitados; e lá eles encontraram uns dez funcionários que se sentavam na parte superior, todos estranhos para o Sr. Sung, com exceção de um que ele reconheceu como o Deus de Guerra. Na varanda, havia duas mesas e dois bancos, e num deles um candidato já estava sentado; assim, o Sr. Sung se sentou no outro. Na mesa havia materiais de escrita para cada um, e de repente um pedaço de papel voou para baixo com um tema nele, consistindo nas oito palavras seguintes: "Um homem, dois homens; com intenção, sem intenção."

Quando o Sr. Sung terminou sua composição, ele a levou de volta até o saguão. Continha a passagem seguinte: "Aqueles que têm intenção de ser virtuosos, embora virtuosos, não serão recompensados. Aqueles que não têm intenção de ser maus, embora maus, não receberão nenhum castigo."

As deidades que presidiam elogiaram muito este sentimento, e chamando o Sr. Sung à frente, disseram a ele: "Um anjo da guarda é necessário em Honan. Vá você e assuma o compromisso." O Sr. Sung, assim que ouviu isto, dobrou a cabeça e chorou, dizendo: "Embora desmerecedor da honra que vós me conferis, eu não deveria me atrever a recusá-la, mas minha velha mãe atingiu a sétima década, e não tem ninguém agora para tomar conta dela. Eu vos peço que me deixeis esperar até que ela cumpra o seu destino, quando eu me colocarei à sua disposição.”

Logo após, uma das deidades, que parecia ser o chefe, deu instruções para procurar o termo de vida da mãe dele, e um criado de barba longa trouxe o Livro do Destino em seguida. Virando suas páginas, ele declarou que ela ainda tinha nove anos para viver; e então uma consulta foi organizada entre as deidades, no meio da qual o Deus de Guerra disse: "Muito bem. Deixemos que o bacharel Sr. Chang assuma o posto, e seja liberado daqui a nove anos". Então, virando-se para o Sr. Sung, continuou: "Você deveria partir sem demora para seu posto; mas como uma recompensa por sua devoção filial, lhe é concedida uma licença de nove anos. Ao fim deste prazo, você receberá outra convocação." Ele dirigiu algumas palavras amáveis em seguida ao Sr. Chang; e os dois candidatos, tendo feito suas reverências, foram embora juntos.

Pegando a mão do Sr. Sung, o companheiro dele — que disse se chamar "Chang Ch'i", de Ch'ang-shan, — o acompanhou além das muralhas de cidade e lhe declamou à despedida uma estrofe de poesia. Eu não consigo me lembrar dela toda, mas nela havia esta parelha de versos:


Com vinho e flores nós perseguimos as horas,
Numa primavera eterna:
Nenhuma lua, nenhuma luz, para alegrar a noite —
Tu mesmo aquele raio tens que trazer.

O Sr. Sung então o deixou e cavalgou de volta e pouco depois chegou à sua própria casa; lá ele acordou como se de um sonho, e descobriu que tinha ficado morto por três dias, quando sua mãe, ouvindo um gemido no caixão, correu até ele e o socorreu. Demorou algum tempo antes que ele pudesse falar, e então ele indagou imediatamente sobre Ch'ang-shan, onde, como se ficou sabendo, um bacharel chamado Chang tinha morrido naquele mesmo dia.
 
Nove anos depois, a mãe do Sr. Sung, conforme o destino, passou desta vida; e quando as cerimônias fúnebres terminaram, o filho dela, tendo antes se purificado, entrou em seu aposento e também morreu.

A família da esposa dele vivia dentro da cidade, próximo ao portão ocidental; e de repente eles viram o Sr. Sung, acompanhado por numerosas carruagens e cavalos com ricas decorações, entrar pelo corredor, fazer uma reverência e partir. Eles ficaram muito desconcertados com isto, pois não sabiam que ele tinha se tornado um espírito, e foram depressa à aldeia fazer indagações, quando ouviram dizer que ele já estava morto.

O Sr. Sung tinha um informe da aventura escrito por ele; mas, infelizmente, depois da insurreição não foi achado. Este é só um esboço da história.

Songling Pu, Histórias Estranhas de um Estúdio Chinês.

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