Je ne fay rien sans gayeté

Eu não faço nada sem alegria

Montaigne, Les Essais - Livre II, Chapitre 10.

domingo, 28 de dezembro de 2014

DAS FRUTAS EM CINCO TEMPOS — Filinto Elísio Correia e Silva

DAS FRUTAS EM CINCO TEMPOS
3


As frutas, uma a uma, darão suas entranhas à boca
O roçar leve de língua ao gosto de todas as coisas,
As frutas saberão trazer do antanho nossas memórias
Em paraísos de proibir nas árvores todo o proibido.

Uma a uma, não nos poderemos delas jamais apartar,
Sílabas poderosas no ulterior dos verbos acamados
Nos leitos de horizontes surgidos do útero da baía
E nas janelas abertas para o império dos sentidos.

De quantas frutas somos benditos no ventre das vontades,
Quantas lágrimas, suores e sêmenes, vagidos de nada,
A esventrar a espessura de tudo ser mais prima matéria.

Ajoelhados ante o silêncio, soletraremos ao infinito
O que desta idade temos ainda de eterna saudade
E entoaremos, de sussurros tão-somente, o hino às frutas.

Filinto Elísio Correia e Silva, em Cabo Verde: Antologia de Poesia Contemporânea, 2011.
Revista África e Africanidades - Ano IV - n. 13 – Maio. 2011 – ISSN 1983-2354

Nenhum comentário:

Postar um comentário