Je ne fay rien sans gayeté

Eu não faço nada sem alegria

Montaigne, Les Essais - Livre II, Chapitre 10.

domingo, 30 de novembro de 2014

DOCE IRA, DOCE MAL, DOCE BRANDURA — Petrarca

Doce ira, doce mal, doce brandura,
Doce afã, doce peso que hei sentido,
Doce falar tão docemente ouvido
E que é doce de luz ou de aura pura.

Alma, sofre calada o que tortura,
Mitiga o doce afã que te há ofendido
Com o doce louvor que hás recebido
Por esta que é minha única ventura.

Dia virá que suspirando diga
Alguém cheio de inveja: Assás sofrera
Esse por belo amor e seu enredo.

Outros: Ó sorte dura e tão imiga!
Por que esta doce dama não nascera
Pouco mais tarde ou eu pouco mais cedo?

Tradução de Jamil Almansur Haddad.

sábado, 29 de novembro de 2014

O VASO PARTIDO — Sully Prudhomme

O vaso azul destas verbenas,
Partiu-o um leque que o tocou:
Golpe sutil, roçou-o apenas,
Pois nem um ruído o revelou.

Mas a ferida persistente,
Mordendo-o sempre e sem sinal,
Fez, firme e imperceptivelmente,
A volta toda do cristal.

A água fugiu calada e fria,
A seiva toda se esgotou;
Ninguém de nada desconfia.
Não toquem, não, que se quebrou.

Assim, a mão de alguém, roçando
Num coração, enche-o de dor;
E ele se vai, calmo, quebrando,
E morre a flor do seu amor;

Embora intacto ao olhar do mundo,
Sente, na sua solidão,
Crescer seu mal fino e profundo.
Já se quebrou: não toquem, não.

Tradução de Guilherme de Almeida.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

O CORAÇÃO QUE BATE NESTE PEITO — Luiz Guimarães Júnior


O coração que bate neste peito
E que bate por ti unicamente,
O coração, outrora independente,
Hoje humilde, cativo e satisfeito;

Quando eu cair, enfim, morto e desfeito,
Quando a hora soar lugubremente
Do repouso final  — tranquilo e crente
Irá sonhar no derradeiro leito.

E quando um dia fores comovida
— Branca visão que entre os sepulcros erra —
Visitar minha fúnebre guarida,

O coração, que toda em si te encerra,
Sentindo-te chegar, mulher querida,
Palpitará de amor dentro da terra.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

FORMOSA, QUAL PINCEL EM TELA FINA — Maciel Monteiro


Formosa, qual pincel em tela fina
Debuxar jamais pôde, ou nunca ousara;
Formosa, qual jamais desabrochara
Na primavera a rosa purpurina...

Formosa, qual se a própria mão divina
Lhe alinhara o contorno e a forma rara;
Formosa, qual no céu jamais brilhara
Astro gentil, estrela peregrina;

Formosa, qual se a natureza, e a arte,
Dando as mãos em seus dons e em seus lavores,
Jamais pôde imitar no todo ou parte;

Mulher celeste, ó anjo de primores!
Quem pôde ver-te, sem querer amar-te?
Quem pôde amar-te, sem morrer de amores?!

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

PERFUME EXÓTICO — Charles Baudelaire

Quando, cerrando os olhos, numa noite ardente,
Respiro a fundo o odor dos teus seios fogosos,
Vejo abrirem-se ao longe litorais radiosos
Tingidos por um sol monótono e dolente.

Uma ilha preguiçosa que nos traz à mente
Estranhas árvores e frutos saborosos;
Homens de corpos nus, esguios, vigorosos,
Mulheres cujo olhar faísca à nossa frente.

Guiado por teu perfume a tais paisagens belas,
Vejo um porto a ondular de mastros e de velas
Talvez exaustos de afrontar os vagalhões,

Enquanto o verde aroma dos tamarineiros,
Que à beira-mar circula e inunda-me os pulmões,
Confunde-se em minha alma à voz dos marinheiros.

Tradução de Carlos Pujol.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

CANTIGA — D. João de Menezes

Pois minha triste ventura,
Nem meu mal não faz mudança,
Quem me vir ter esperança,
Cuide que é de mais tristura.

E pois vejo que em morrer
Levais gloria não pequena,
Antes não quero viver,
Que viverdes vós em pena.

Quero triste sepultura;
Quero fim sem mais tardança;
Pois nunca tive esperança.
Que não fosse de tristura.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

O ENCONTRO DESFEITO — Poema Chinês Anônimo (± 1000 AC)

Os salgueiros junto ao portão oriental —
Suas folhas espessas, espessas.
A noite foi a hora que nós marcamos,
E agora a estrela d'alva está brilhando.

Os salgueiros junto ao portão oriental —
Sua folhagem densa, densa.
A noite foi a hora que nós marcamos,
E já a estrela d'alva empalidece.

Com ornamentos dourados — um cavaleiro errante.
Ao tear — uma dama pensativa.
A primavera se vai, e ele ainda não voltou;
As flores se foram e ficaram só as folhas.

domingo, 23 de novembro de 2014

EU VI A FLOR DO CÉU — Sousândrade

Eu vi a flor do céu — meiga esperança
Sorrindo para mim, Deus verdadeiro!
Eu amei como um doido a formosura,
E eu não tinha dinheiro...

Então senti minha alma degradada,
Como à bandeira que hasteou Tarquino,
Quando o fogo da febre lhe lavrava
Nas veias do assassino.

E do mundo aos aplausos, minha fronte
Pálida entristeceu, mal resignada,
Como essas flores, cuja alvura indica
Flórea estação passada.

Tarquino = ´Tarquínio, o Soberbo, último rei de Roma, que matou seu sogro, com a ajuda de Túlia Menor, sua mulher e filha do rei Sérvio Túlio.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

CANSADO DO MUNDO — Shunzei

Cansado do mundo, 
Eu tinha pensado me esconder bem longe,
Nesta aldeia da montanha, 
Mas alcança todo canto da noite
O brilho muito luminoso da lua.
 

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

FEIJOADA À MINHA MODA — Vinicius de Moraes

Amiga Helena Sangirardi
Conforme um dia eu prometi
Onde, confesso que esqueci
E embora — perdoe — tão tarde

(Melhor do que nunca!) este poeta
Segundo manda a boa ética
Envia-lhe a receita (poética)
De sua feijoada completa.

Em atenção ao adiantado
Da hora em que abrimos o olho
O feijão deve, já catado
Nos esperar, feliz, de molho.

E a cozinheira, por respeito
À nossa mestria na arte
Já deve ter tacado peito
E preparado e posto à parte

Os elementos componentes
De um saboroso refogado
Tais: cebolas, tomates, dentes
De alho — e o que mais for azado

Tudo picado desde cedo
De feição a sempre evitar
Qualquer contato mais... vulgar
Às nossas nobres mãos de aedo

Enquanto nós, a dar uns toques
No que não nos seja a contento
Vigiaremos o cozimento
Tomando o nosso uísque on the rocks.

Uma vez cozido o feijão
(Umas quatro horas, fogo médio)
Nós, bocejando o nosso tédio
Nos chegaremos ao fogão

E em elegante curvatura:
Um pé adiante e o braço às costas
Provaremos a rica negrura
Por onde devem boiar postas

De carne-seca suculenta
Gordos paios, nédio toucinho
(Nunca orelhas de bacorinho
Que a tornam em excesso opulenta!)

E — atenção! — segredo modesto
Mas meu, no tocante à feijoada:
Uma língua fresca pelada
Posta a cozer com todo o resto.

Feito o quê, retire-se caroço
Bastante, que bem amassado
Junta-se ao belo refogado
De modo a ter-se um molho grosso

Que vai de volta ao caldeirão
No qual o poeta, em bom agouro
Deve esparzir folhas de louro
Com um gesto clássico e pagão.

Inútil dizer que, entrementes
Em chama à parte desta liça
Devem fritar, todas contentes
Lindas rodelas de linguiça

Enquanto ao lado, em fogo brando
Desmilinguindo-se de gozo
Deve também se estar fritando
O torresminho delicioso

Em cuja gordura, de resto
(Melhor gordura nunca houve!)
Deve depois frigir a couve
Picada, em fogo alegre e presto.

Uma farofa? — tem seus dias...
Porém que seja na manteiga!
A laranja gelada, em fatias
(Seleta ou da Bahia) — e chega.

Só na última cozedura
Para levar à mesa, deixa-se
Cair um pouco da gordura
Da linguiça na iguaria - e mexa-se.

Que prazer mais um corpo pede
Após comido um tal feijão?
— Evidentemente uma rede
E um gato para passar a mão...

Dever cumprido. Nunca é vã
A palavra de um poeta... — jamais!
Abraça-a, em Brillat-Savarin
O seu Vinicius de Moraes.


quarta-feira, 19 de novembro de 2014

terça-feira, 18 de novembro de 2014

TAO TE KING, 81 - Lao Tse

Palavras verdadeiras raramente são elaboradas.
Palavras elaboradas raramente são verdadeiras.
Palavras boas raramente são eloquentes.
Palavras eloquentes raramente são boas.
Aquele que sabe raramente é erudito.
Aquele que é erudito raramente sabe.
Os sábios não acumulam sabedoria.
Dando a outros o que eles têm
Eles ainda têm mais.
Compartilhando o que eles têm com outros
Eles ainda são mais ricos.
O Caminho do Céu ajuda e nunca prejudica.
O Caminho do sábio é generoso
E livre de qualquer conflito.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

O IMIGRADO — Oswald de Andrade

Quando vieres de torna-viagem
Trarás a cabeça exangue
E a lembrança inútil
Dos que frequentaram o inferno
Trarás a cabeça
Como os caules amorfos
E teu coração beijará os perfumes da tarde

domingo, 16 de novembro de 2014

PERCEBENDO A FUTILIDADE DA VIDA — Po Chü-i

Escrito na parede de uma cela de monges, aproximadamente 828 AD.
 
Desde o tempo em que eu era um menino vigoroso 
Até agora, quando estou doente e velho, 
As coisas que desejei foram diferentes em tempos diferentes, 
Mas eu estar ocupado, isso nunca mudou. 
Antes, na praia —construindo pagodes de areia; 
— Agora, na Corte, coberto com jade tilintante. 
Isto e aquilo —jogos igualmente infantis, 
Coisas cuja substância passa num momento do tempo! 
Enquanto as mãos estiverem ocupadas, o coração não pode entender; 
Quando não há nenhum Livro Sagrado, então a Doutrina é sã.*
Até mesmo o esforço zeloso para aprender o Caminho, 
Aquele mesmo esforço fará a pessoa errar mais. 
 
* Esta é a doutrina da Seita Dhyana.

sábado, 15 de novembro de 2014

O CEGO E AS UVAS — Trecho de A Vida de Lazarillo de Tormes

Aconteceu que, chegando a um lugar que chamam Almoroz na época em que colhiam as uvas, um vindimador lhe deu um racimo delas em esmola. E como os cestos costumam estar desgastados, e também porque a uva naquela ocasião está muito madura, os bagos do racimo se soltavam em sua mão. Se fosse guardado no saco de provisões virava suco e molhava tudo lá dentro.
Concordou em fazer um banquete, tanto por não poder levar as uvas como para me agradar, pois naquele dia tinha me dado muitos trompaços e golpes. Sentamos numa cerca e ele disse:
"Agora quero ser generoso contigo, de modo que nós dois comamos este racimo de uvas, e que comas tanto dele como eu. Vamos dividi-lo desta maneira: tu pegarás uma vez e eu outra; desde que me prometas não pegar mais de uma a cada vez. Farei o mesmo até que acabemos com ele, e deste jeito não haverá engano."
Feito assim o acordo, começamos; mas logo no segundo lance o traidor mudou de propósito e começou a pegar de duas em duas, pensando que eu devia estar fazendo o mesmo. Como vi que ele quebrava o trato, não me contentei em agir como ele, mas ainda passava na frente: duas a duas, três a três, e como podia as comia. Acabado o racimo, esteve um pouco com o bagaço na mão e, meneando a cabeça, disse:
"Lázaro, me enganaste. Jurarei diante de Deus que comeste as uvas de três em três."
"Não comi — disse eu — mas por que suspeitais isso?"
Respondeu o sagacíssimo cego:
"Sabes como vejo que as comeste de três em três? É que eu comia de duas em duas e não reclamaste."
Ao que não respondi. Ri comigo mesmo e, embora inexperiente, admirei muito o raciocínio arguto do cego.

A Vida de Lazarillo de Tormes e de suas Fortunas e Adversidades, de autor desconhecido. Publicada em 1554. Foi o primeiro romance picaresco e é o modelo do gênero.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

NA PAREDE DE UMA HOSPEDARIA — Song Zhiwen

Inscrito na Parede de uma Hospedaria
Ao Norte da Montanha de Dayu


Dizem que gansos selvagens, voando para o sul,
Aqui retrocedem, este mesmo mês...
E minha própria viagem ao sul
Alguma vez voltará atrás, eu me pergunto?
O rio está pausando na maré baixa,
E os bosques estão densos com a névoa envolvente —
Mas amanhã de manhã, em cima da montanha,
O amanhecer será branco nas ameixeiras do lar.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

UM HOMEM DE ORIGEM MODESTA — Trecho Encontrado no Hagakure

Um homem de origem modesta, que obtém certo renome e alcança uma posição social elevada, é dotado claramente de qualidades excelentes. No entanto, haverá pessoas que sempre acharão desagradável ombrear-se com um homem de genealogia duvidosa, e que sempre recusarão considerar como oficial superior àquele que até então não era mais que um simples soldado.

Fundamentalmente, um homem que se destacou da multidão só pôde fazê-lo porque possui mais habilidade e mérito do que os que estavam situados, inicialmente, num alto escalão. Por isso, devemos sempre testemunhar o maior respeito a esse homem.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

ROSINHA SILVESTRE — Goethe

Estava uma rosinha
Rosinha do silvado
Tão nova e tão fresquinha
Que linda cor que tinha!
Veio um rapaz malvado
Ah rosinha, rosinha,
Rosinha do silvado.

"Vou colher-te, lhe disse,
Rosinha do silvado.
Respondeu com meiguice:
— Bem bom que se ferisse!
Tenho espinhos, malvado!
Ah rosinha, rosinha,
Rosinha do silvado.

Colheu o arteiro a linda
Rosinha do silvado.
Arde-lhe o dedo ainda
E de chorar não finda
Ah rosinha, rosinha,
Rosinha do silvado.

Tradução de Alberto Ramos.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

CANÇÕES DOS CANIÇOS 1 — Nikolaus Lenau

Lá longe o sol está partindo,
cansado o dia foi dormir.
Salgueiros chorões, entrelaçando-se,
tocam a lagoa, tão imóvel, tão funda.
De meu amor tenho que me separar:
Fluam, minhas lágrimas, e Boa viagem!
Tristemente soam as ondulações dos salgueiros,
e os caniços tremulam sob os ventos.
Em minha profunda e silenciosa aflição,
tu, distância, refulge humilde desde longe,
como, através da trama dos caniços e dos salgueiros,
luminosa brilha a estrela da noite.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

RAPSODIA DE SAULO — Aurelio Arturo

Trabajar era bueno en el sur, cortar los árboles,
hacer canoas de los troncos.
Ir por los ríos en el sur, decir canciones,
era bueno. Trabajar entre ricas maderas.

(Un hombre de la riba, unas manos hábiles,
un hombre de ágiles remos por el río opulento,
me habló de las maderas balsámicas, de sus efluvios…
¡Un hombre viejo en el sur, contando historias!)

Trabajar era bueno. Sobre troncos
la vida, sobre la espuma, cantando las crecientes.
¿Trabajar un pretexto para no irse del río,
para ser también el río, el rumor de la orilla?

Juan Gálvez, José Narváez, Pioquinto Sierra,
como robles entre robles… Era grato,
con vosotros cantar o maldecir, en los bosques
abatir avecillas como hojas del cielo.

Y Pablo Garcés, Julio Balcázar, los Ulloas,
tántos que allí se esforzaban entre los días
Trajimos sin pensarlo en el habla los valles,
los ríos, su resbalante rumor abriendo noches,

un silencio que picotean los verdes paisajes,
un silencio cruzado por un ave delgada como hoja.
Mas los que no volvieron viven más hondamente,
los muertos viven en nuestras canciones.

Trabajar… Ese río me baña el corazón.
En el sur. Vi rebaños de nubes y mujeres más leves
que esa brisa que me mece la siesta de los árboles.
Pude ver, os lo juro, era en el bello sur.

Grata fue la rudeza. Y las blancas aldeas,
tenían tan suaves brisas: pueblecillos de río,
en sus umbrales las mujeres sabían sonreír y dar un beso.
Grata fue la rudeza y ese hálito de hombría y de resinas.

Me llena el corazón de luz de un suave rostro
y un dulce nombre, que en la ruta cayó como una rosa.
Aldea, paloma de mi hombro, yo que silbé por los caminos,
yo que canté, un hombre rudo, buscaré tus helechos,

acariciaré tu trenza oscura, –un hombre bronco–,
tus perros lamerán otra vez mis manos toscas.
Yo que canté por los caminos, un hombre de la orilla,
un hombre de ligeras canoas por los ríos salvajes.

domingo, 9 de novembro de 2014

ERROS MEUS, MÁ FORTUNA, AMOR ARDENTE — Camões

Erros meus, má fortuna, amor ardente
em minha perdição se conjuraram;
os erros e a fortuna sobejaram,
que para mim bastava o amor somente.

Tudo passei; mas tenho tão presente
a grande dor das coisas que passaram,
que as magoadas iras me ensinaram
a não querer já nunca ser contente.

Errei todo o discurso de meus anos;
dei causa que a Fortuna castigasse
as minhas mal fundadas esperanças.

De amor não vi senão breves enganos.
Oh! quem tanto pudesse que fartasse
este meu duro gênio de vinganças!

sábado, 8 de novembro de 2014

O MISTÉRIO DA POESIA — Rubem Braga

Não sei o nome desse poeta, acho que boliviano; apenas lhe conheço um poema, ensinado por um amigo. E só guardei os primeiros versos: Trabajar era bueno en el Sur. Cortar los árboles, hacer canoas de los troncos. *

E tendo guardado esses dois versos tão simples, aqui me debruço ainda uma vez sobre o mistério da poesia.

O poema era grande, mas foram essas palavras que me emocionaram. Lembro-me delas às vezes, numa viagem; quando estou aborrecido, tenho notado que as murmuro para mim mesmo, de vez em quando, nesses momentos de tédio urbano. E elas produzem em mim uma espécie de consolo e de saudade não sei de quê.

Lembrei-me agora mesmo, no instante em que abria a máquina para trabalhar nessa coisa vã e cansativa que é fazer crônica.

De onde vem o efeito poético? É fácil dizer que vem do sentido dos versos; mas não é apenas do sentido. Se ele dissesse: Era bueno trabajar en el Sur, não creio que o poema pudesse me impressionar. Se no lugar de usar o infinito do verbo cortar e do verbo hacer usasse o passado, creio que isso enfraqueceria tudo. Penso no ritmo; ele sozinho não dá para explicar nada. Além disso, as palavras usadas são, rigorosamente, das mais banais da língua. Reparem que tudo está dito com os elementos mais simples: trabajar, era bueno, Sur, cortar, árboles, hacer canoas, troncos.

Isso me lembra um dos maiores versos de Camões, todo ele também com as palavras mais corriqueiras de nossa língua:

"A grande dor das coisas que passaram."

Talvez o que impressione seja mesmo isso: essa faculdade de dar um sentido solene e alto às palavras de todo dia. Nesse poema sul-americano a idéia da canoa é também um motivo de emoção.

Não há coisa mais simples e primitiva que uma canoa feita de um tronco de árvore; e acontece que muitas vezes a canoa é de uma grande beleza plástica. E de repente me ocorre que talvez esses versos me emocionem particularmente por causa de uma infância de beira-rio e de beira-mar. Mas não pode ser: o principal sentido dos versos é o do trabalho; um trabalho que era bom, não essa "necessidade aborrecida" de hoje. Desejo de fazer alguma coisa simples, honrada e bela, e imaginar que já se fez.

Fala-se muito em mistério poético; e não faltam poetas modernos que procurem esse mistério enunciando coisas obscuras, o que dá margem a muito equívoco e muita bobagem. Se na verdade existe muita poesia e muita carga de emoção em certos versos sem um sentido claro, isso não quer dizer que, turvando um pouco as águas, elas fiquem mais profundas...

O poema é Rapsodia de Saulo do poeta colombiano Aurelio Arturo.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

SOBRE A ARTE DE ESCREVER - Jessamyn West

Às vezes eu penso que um escritor deveria se decidir se ele vai ser um escritor ou um leitor.
A coisa que um escritor deve fazer é começar a escrever assim que puder.

A Arte da Ficção Nº 67 [1977] 
Entrevistada por Carolyn Doty.
the Paris Review

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

ODE A LEUCÓNOE — Horácio

Mais uma versão da Ode I. 11. de Horácio, só porque nela é que se encontra a expressão 'carpe diem'.

Não tente saber, Leucónoe, que fim os deuses assinalaram a você ou a mim. Este conhecimento nos é proibido. Não interrogue mais estes números mágicos, vindos da Babilônia.
É preferível aceitar o que tem que acontecer, que Júpiter nos conceda novamente muitos outros invernos, ou que este seja nossa estação derradeira, apreciando agora o mar Tirreno, erguendo-se nas areias da praia.
Você faria bem melhor, enchendo nossas taças de vinho leve e reduzindo as expectativas distantes ao alcance de nossa curta duração.
Enquanto nós falamos, foge o tempo ciumento. Colha então o dia presente, sem confiar muito no dia de amanhã.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

terça-feira, 4 de novembro de 2014

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

DA 14ª CARTA AO FILHO — Conde de Chesterfield

... lembre-se de que erros e enganos, embora grosseiros, em assuntos de opinião, se são sinceros, devem ser lastimados, mas não castigados nem ridicularizados. A cegueira do entendimento deve ser tão lastimada como a cegueira do olho; e não há nem ridículo nem culpa num homem que perde o rumo em qualquer desses casos. A caridade nos incita a orientá-lo se pudermos, por argumentos e persuasões; mas a caridade, ao mesmo tempo, proíbe castigar ou ridicularizar seu infortúnio. A razão de cada homem é, e deve ser, o seu guia; e eu tanto posso esperar que todo homem seja de meu tamanho e aparência, como esperar que raciocine da minha mesma maneira. Todo homem busca a verdade; mas só Deus sabe quem a encontrou. É, portanto, tão injusto perseguir, como é absurdo ridicularizar, pessoas pelas diversas opiniões, que não podem evitar de manter na convicção de sua razão. É o homem que diz, ou que pratica uma mentira, que é culpado, e não aquele que, honestamente e sinceramente, acredita na mentira. Eu realmente não conheço nada mais criminoso, mais baixo, e mais ridículo, do que a mentira. É produto da malícia, covardia, ou vaidade; e geralmente erra o alvo em qualquer destes aspectos; porque cedo ou tarde as mentiras sempre são descobertas.

sábado, 1 de novembro de 2014

LAI DE LEONORETA — João de Lobeira

Senhor genta,
Mi tormenta
Voss'amor em guisa tal,
Que tormenta
Que eu senta
Outra non m'é ben nen mal
Mais la vossa m'é mortal!
Leonoreta,
Fin roseta,
Bela sobre toda fror,
Fin roseta,
Non me meta
En tal coita voss'amor!

Das que vejo
Non desejo
Outra senhor se vós non;
E desejo
Tan sobejo
Mataria un leom
Senhor do meu coraçon!
Leonoreta,
Fin roseta,
Bela sobre toda fror,
Fin roseta,
Non me meta
En tal coita voss'amor!

Mha ventura
En loucura
Me meteo de vos amar;
É loucura
Que me dura
Que me non posso en quitar
Ai fremusura sem par!
Leonoreta,
Fin roseta,
Bela sobre toda fror,
Fin roseta,
Non me meta
En tal coita voss'amor!

Senhor genta = gentil senhora
em guisa tal = de tal maneira
Que eu senta = que eu sinta
Fin roseta = fina roseta (roseta = pequena rosa)
coita = estado de aflição e abatimento; pena, infelicidade, dor; ânsia
quitar = livrar