Je ne fay rien sans gayeté

Eu não faço nada sem alegria

Montaigne, Les Essais - Livre II, Chapitre 10.

quinta-feira, 5 de março de 2015

EU TE AMO — Paul Éluard

Eu te amo por todas as mulheres
Que não conheci
Eu te amo por todo o tempo
Em que não vivi
Pelo odor da amplidão
E o odor do pão quente
Pela neve que se funde
Pelas primeiras flores
Pelos animais puros
Que o homem não amedronta
Eu te amo por amar
Eu te amo por todas as mulheres
Que eu não amo

Ninguém me reflete só tu mesma
Eu me vejo tão pouco
Sem ti eu não vejo nada
Além de uma extensão deserta
Entre antes e hoje
Houve todos esses mortos
Que ultrapassei
Na palha
Eu não pude penetrar
A parede de meu espelho
Eu precisei aprender
Palavra por palavra a vida
Como quem se esquece

Eu te amo por tua sabedoria
Que não é a minha
Pela saúde eu te amo
Contra tudo que é só ilusão
Por este coração imortal
Que eu não interrompo
Que tu crês que é a dúvida
E tu és toda razão
Tu és o grande sol
Que eu ergo à cabeça
Quando estou seguro de mim
Quando estou seguro de mim

Tu és o grande sol
Que eu ergo à cabeça
Quando estou seguro de mim
Quando estou seguro de mim

domingo, 22 de fevereiro de 2015

A AMANTE — Paul Éluard

Ela está de pé em minhas pálpebras
E seus cabelos estão nos meus,
Ela tem a forma de minhas mãos,
Ela tem a cor de meus olhos,
Ela se imerge em minha sombra
Como uma pedra no céu.
   
Ela tem sempre os olhos abertos
E não me deixa dormir.
Seus sonhos em plena luz
Fazem evaporar os sóis,
Me fazem rir, chorar e rir,
Falar sem ter qualquer coisa a dizer.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

SÓ É MEU O PAÍS QUE SE ENCONTRA EM MINHA ALMA — Marc Chagall

Só é meu o país que se encontra em minha alma
Aí entro sem passaporte, como em minha casa
Ele vê minha tristeza, e minha solidão, ele me adormece
E me cobre com uma pedra perfumada
Em mim florescem os jardins, minhas flores são inventadas
As ruas me pertencem, mas nelas não há casas
Elas foram destruídas desde a infância
Os habitantes vagabundeiam no ar à procura de um lar
Eles habitam em minha alma
Eis porque sorrio, quando meu sol quase não brilha
Ou choro como uma chuvinha na noite
Houve um tempo em que eu tinha duas cabeças
Houve um tempo em que eu tinha dois rostos
Que se cobriam de um orvalho amoroso
E se fundiam como o perfume de uma rosa
Agora parece que mesmo quando recuo
Sigo avante em direção a um alto portal
Atrás do qual se estendem muros
Onde dormem trovões extintos e relâmpagos quebrados
Só é meu o país que se encontra em minha alma

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

CONCUPISCÊNCIA — Pierre Reverdy

Se vais sobre a terra onde nada é fosco
O açúcar de teus lábios nas pedras solares
Os talos desguarnecidos dos pensamentos milenares
E o pátio alargado
Na primeira volta da paisagem sob o céu
O céu verde
O céu duro
O céu que pesa ou que foge
Mas esta manhã eu me lanço no horizonte que gira
Sobre os buracos de claridade da terra que rola
E sobre os passos apressados deste mar que flui
Com toda minha vida cruel e oprimida
Esta manhã tudo foi lavado pelas esponjas da noite
Os olhos novos contemplam os móveis da terra
As árvores bem talhadas em seus pedestais de pedras
E as nuvens brancas em sua gaiola de vidro
Minha dor enterrada
Porque os sentimentos são muito grandes para este corpo muito
Estreito
A carne é esticada pelo espírito que se evade
E os gritos sufocados no rumor dos porões
Onde minha luz mal alcança e morre de frio
Basta um movimento imperceptível de teus lábios
Uma mudança na claridade de teu olhar
Um músculo que sob a pele dança
Ou ainda um gesto de ternura que chega tarde
Tudo se transforma
As regras da vida se tornam sombrias
A jogada não deu certo
E eu trabalho na esperança
De que nenhuma recompensa me será dada.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

EU QUERO RIR, QUERO RIR — Jean Moréas

As folhas podem tombar,
o rio pode gelar!
Eu quero rir, quero rir.

A dança pode cessar,
o violão pode quebrar,
Eu quero rir, quero rir.

O mal pode até piorar!
Eu quero rir, quero rir.

Jean Moréas, Autant en Emporte le Vent, XVII, 1893.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

NADA RESTA DE MIM POR SOBRE A TERRA — José Zorrilla

EPITÁFIO
No sepulcro de um menino.

Nada resta de mim por sobre a terra:
O leve pó que minha tumba encerra
Converterá o abril em frescas flores
E o céu deu à minh'alma eterno asilo.
Bondoso coração, passa tranquilo
Junto à minha tumba: passa e não chores.

domingo, 4 de janeiro de 2015

ESTE POEMA DE AMOR NÃO É LAMENTO — Jorge de Lima

Este poema de amor não é lamento
Nem tristeza distante, nem saudade,
Nem queixume traído nem o lento
Perpassar da paixão ou pranto que há de

Transformar-se em dorido pensamento,
Em tortura querida ou em piedade
Ou simplesmente em mito, doce invento,
E exaltada visão da adversidade.

É a memória ondulante da mais pura
E doce face (intérmina e tranquila)
Da eterna bem-amada que eu procuro;

Mas tão real, tão presente criatura
Que é preciso não vê-la nem possuí-la
Mas procurá-la nesse vale obscuro.

sábado, 3 de janeiro de 2015

A CIÊNCIA DO AMOR, QUE NÃO SE APRENDE — Marcos Konder Reis

A ciência do amor, que não se aprende,
Mas abre dentro da alma, de repente,
A sombra de uma flor, quando a pressente
Abrindo-se de amor; se amor pretende

A posse de uma sombra onde se estende
A forma enclausurada na semente,
E a sagra respirando lentamente
O aroma desse amor que não se aprende,

É clara como a sede, como a fome,
No corpo em que se infunde e amor consome.
Porém, se amor crescendo é como a planta

E vive de uma insana liberdade,
No espaço em que ela vinga e se levanta,
A ciência do amor é a claridade.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

MULHER NEGRA — Léopold Sédar Senghor

MULHER NEGRA

Mulher nua, mulher negra

Vestida de tua cor que é vida, de tua forma que é beleza!
Eu cresci à tua sombra; a doçura de tuas mãos enfaixava meus olhos
E eis que no centro do Verão e do Sul, eu te descubro,
Terra prometida, do topo de um colarinho alto calcinado1
E tua beleza me atinge como um raio em pleno coração, como o relâmpago de uma águia.

Mulher nua, mulher obscura

Fruto maduro de carne firme, êxtases sombrios do vinho negro, boca que torna lírica minha boca
Savana dos horizontes puros, savana que fremias às carícias ferventes do vento Leste
Tom-tom2 esculpido, tom-tom esticado que gemes sob os dedos do vencedor
Tua voz grave de contralto é o canto espiritual da Amada.

Mulher nua, mulher obscura

Óleo que nenhum sopro enruga, óleo calmo nos flancos do atleta, nos flancos dos príncipes de Mali
Gazela de relações celestes, as pérolas são estrelas sobre a noite de tua pele
Delícias espirituais, os reflexos de ouro vermelho sobre tua pele furta-cor
Na sombra de teus cabelos, se ilumina minha angústia nos sóis próximos de teus olhos.

Mulher nua, mulher negra

Canto tua beleza que passa, forma que fixo no Eterno
Antes que o Destino ciumento te reduza a cinzas para nutrir as raízes da vida.

1 Senghor estava na França (au coeur de l’Eté et de midi), a que alude também o colarinho alto.
2 Tom-tom ou timbalão é um tambor, parte do conjunto de uma bateria.