Je ne fay rien sans gayeté

Eu não faço nada sem alegria

Montaigne, Les Essais - Livre II, Chapitre 10.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

A GALINHA DOS OVOS DE OURO - Esopo

Um aldeão e sua mulher tinham uma galinha que botava um ovo de ouro todo os dias. Eles supunham que a galinha continha um grande pedaço de ouro em seu interior e, para pegar esse ouro, eles mataram a galinha. Tendo feito isso, surpreenderam-se ao descobrir que a galinha em nada era diferente das outras. O casal de tolos, esperando ficar ricos de repente, privou-se de um ganho do qual estavam seguros dia a dia.

A cobiça frequentemente engana a si mesma.

A Natureza é essa galinha.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

EXAME PARA O POSTO DE ANJO DA GUARDA — Songling Pu

O avô do marido de minha irmã mais velha, chamado Tao Sung, era um bacharel. Um dia, enquanto estava deitado por causa de uma indisposição, um mensageiro oficial chegou, trazendo a notificação usual na mão e conduzindo um cavalo com uma testa branca, para levá-lo ao exame do grau de mestre. O Sr. Sung então comentou que o Examinador Principal ainda não tinha vindo, e perguntou por que deveria haver tanta pressa. O mensageiro não respondeu a isto, mas o pressionou com tanta gravidade que por fim o Sr. Sung se ergueu e, montando no cavalo, cavalgou com ele. O caminho parecia estranho, mas depois eles chegaram a uma cidade que se assemelhava à capital de um príncipe.

Eles entraram no palácio do Prefeito, cujos aposentos estavam graciosamente enfeitados; e lá eles encontraram uns dez funcionários que se sentavam na parte superior, todos estranhos para o Sr. Sung, com exceção de um que ele reconheceu como o Deus de Guerra. Na varanda, havia duas mesas e dois bancos, e num deles um candidato já estava sentado; assim, o Sr. Sung se sentou no outro. Na mesa havia materiais de escrita para cada um, e de repente um pedaço de papel voou para baixo com um tema nele, consistindo nas oito palavras seguintes: "Um homem, dois homens; com intenção, sem intenção."

Quando o Sr. Sung terminou sua composição, ele a levou de volta até o saguão. Continha a passagem seguinte: "Aqueles que têm intenção de ser virtuosos, embora virtuosos, não serão recompensados. Aqueles que não têm intenção de ser maus, embora maus, não receberão nenhum castigo."

As deidades que presidiam elogiaram muito este sentimento, e chamando o Sr. Sung à frente, disseram a ele: "Um anjo da guarda é necessário em Honan. Vá você e assuma o compromisso." O Sr. Sung, assim que ouviu isto, dobrou a cabeça e chorou, dizendo: "Embora desmerecedor da honra que vós me conferis, eu não deveria me atrever a recusá-la, mas minha velha mãe atingiu a sétima década, e não tem ninguém agora para tomar conta dela. Eu vos peço que me deixeis esperar até que ela cumpra o seu destino, quando eu me colocarei à sua disposição.”

Logo após, uma das deidades, que parecia ser o chefe, deu instruções para procurar o termo de vida da mãe dele, e um criado de barba longa trouxe o Livro do Destino em seguida. Virando suas páginas, ele declarou que ela ainda tinha nove anos para viver; e então uma consulta foi organizada entre as deidades, no meio da qual o Deus de Guerra disse: "Muito bem. Deixemos que o bacharel Sr. Chang assuma o posto, e seja liberado daqui a nove anos". Então, virando-se para o Sr. Sung, continuou: "Você deveria partir sem demora para seu posto; mas como uma recompensa por sua devoção filial, lhe é concedida uma licença de nove anos. Ao fim deste prazo, você receberá outra convocação." Ele dirigiu algumas palavras amáveis em seguida ao Sr. Chang; e os dois candidatos, tendo feito suas reverências, foram embora juntos.

Pegando a mão do Sr. Sung, o companheiro dele — que disse se chamar "Chang Ch'i", de Ch'ang-shan, — o acompanhou além das muralhas de cidade e lhe declamou à despedida uma estrofe de poesia. Eu não consigo me lembrar dela toda, mas nela havia esta parelha de versos:


Com vinho e flores nós perseguimos as horas,
Numa primavera eterna:
Nenhuma lua, nenhuma luz, para alegrar a noite —
Tu mesmo aquele raio tens que trazer.

O Sr. Sung então o deixou e cavalgou de volta e pouco depois chegou à sua própria casa; lá ele acordou como se de um sonho, e descobriu que tinha ficado morto por três dias, quando sua mãe, ouvindo um gemido no caixão, correu até ele e o socorreu. Demorou algum tempo antes que ele pudesse falar, e então ele indagou imediatamente sobre Ch'ang-shan, onde, como se ficou sabendo, um bacharel chamado Chang tinha morrido naquele mesmo dia.
 
Nove anos depois, a mãe do Sr. Sung, conforme o destino, passou desta vida; e quando as cerimônias fúnebres terminaram, o filho dela, tendo antes se purificado, entrou em seu aposento e também morreu.

A família da esposa dele vivia dentro da cidade, próximo ao portão ocidental; e de repente eles viram o Sr. Sung, acompanhado por numerosas carruagens e cavalos com ricas decorações, entrar pelo corredor, fazer uma reverência e partir. Eles ficaram muito desconcertados com isto, pois não sabiam que ele tinha se tornado um espírito, e foram depressa à aldeia fazer indagações, quando ouviram dizer que ele já estava morto.

O Sr. Sung tinha um informe da aventura escrito por ele; mas, infelizmente, depois da insurreição não foi achado. Este é só um esboço da história.

Songling Pu, Histórias Estranhas de um Estúdio Chinês.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

O TESOURO — Eça de Queirós

I
Os três irmãos de Medranhos, Rui, Guanes e Rostabal, eram então, em todo o Reino das Astúrias, os fidalgos mais famintos e os mais remendados.
Nos Paços de Medranhos, a que o vento da serra levara vidraça e telha, passavam eles as tardes desse Inverno, engelhados nos seus pelotes de camelão, batendo as solas rotas sobre as lajes da cozinha, diante da vasta lareira negra, onde desde muito não estalava lume, nem fervia a panela de ferro. Ao escurecer devoravam uma côdea de pão negro, esfregada com alho.
Depois, sem candeia, através do pátio, fendendo a neve, iam dormir á estrebaria, para aproveitar o calor das três éguas lazarentas que, esfaimadas como eles, roíam as traves da manjedoura. E a miséria tornara estes senhores mais bravios que lobos.
Ora, na Primavera, por uma silenciosa manhã de domingo, andando todos três na mata de Roquelanes a espiar pegadas de caça e a apanhar tortulhos entre os robles, enquanto as três éguas pastavam a relva nova de Abril — os irmãos de Medranhos encontraram, por trás de uma moita de espinheiros, numa cova de rocha, um velho cofre de ferro. Como se o resguardasse uma torre segura, conservava as suas três chaves nas suas três fechaduras. Sobre a tampa, mal decifrável através da ferrugem, corria um dístico em letras árabes. E dentro, até às bordas, estava cheio de dobrões de ouro!
No terror e esplendor da emoção, os três senhores ficaram mais lívidos do que círios. Depois, mergulhando furiosamente as mãos no ouro, estalaram a rir, num riso de tão larga rajada que as folhas tenras dos olmos, em roda, tremiam... E de novo recuaram, bruscamente se encararam, com os olhos a flamejar, numa desconfiança tão desabrida que Guanes e Rostabal apalpavam nos cintos os cabos das grandes facas. Então Rui, que era gordo e ruivo, e o mais avisado, ergueu os braços, como um árbitro, e começou por decidir que o tesouro, ou viesse de Deus ou do Demônio, pertencia aos três, e entre eles se repartiria, rigidamente, pesando-se o ouro em balanças. Mas como poderiam carregar para Medranhos, para os cimos da serra, aquele cofre tão cheio? Nem convinha que saíssem da mata com o seu bem, antes de cerrar a escuridão. Por isso ele entendia que o mano Guanes, como mais leve, devia trotar para a vila vizinha de Retortilho, levando já ouro na bolsilha, a comprar três alforjes de couro, três maquias de cevada, três empadões de carne e três botelhas de vinho. Vinho e carne eram para eles, que não comiam desde a véspera: a cevada era para as éguas. E assim refeitos, senhores e cavalgaduras, ensacariam o ouro nos alforjes e subiriam para Medranhos, sob a segurança da noite sem lua.
— Bem tramado! — gritou Rostabal, homem mais alto que um pinheiro, de longa guedelha, e com uma barba que lhe caía desde os olhos raiados de sangue até a fivela do cinturão.
Mas Guanes não se arredava do cofre, enrugado, desconfiado, puxando entre os dedos a pele negra do seu pescoço de grou. Por fim, brutalmente:
— Manos! O cofre tem três chaves... Eu quero fechar a minha fechadura e levar a minha chave!
— Também eu quero a minha, mil raios! — rugiu logo Rostabal.
Rui sorriu. Decerto, decerto! A cada dono do ouro cabia uma das chaves que o guardavam. E cada um em silêncio, agachado ante o cofre, cerrou a sua fechadura com força. Imediatamente Guanes, desanuviado, saltou na égua, meteu pela vereda de olmos, a caminho de Retortilho, atirando aos ramos a sua cantiga costumada e dolente:
Olé! Olé!
Sale la cruz de la iglesia,
Vestida de negro luto...

II
Na clareira, em frente à moita que encobria o tesouro (e que os três tinham desbastado a cutiladas), um fio de água, brotando entre rochas, caía sobre uma vasta laje escavada, onde fazia como um tanque, claro e quieto, antes de se escoar para as relvas altas. E ao lado, na sombra de uma faia, jazia um velho pilar de granito, tombado e musgoso. Ali vieram sentar-se Rui e Rostabal, com os seus tremendos espadões entre os joelhos. As duas éguas retouçavam a boa erva pintalgada de papoulas e botões-de-ouro. Pela ramaria andava um melro a assobiar. Um cheiro errante de violetas adoçava o ar luminoso. E Rostabal, olhando o Sol, bocejava com fome.
Então Rui, que tirara o sombreiro e lhe cofiava as velhas plumas roxas, começou a considerar, na sua fala avisada e mansa, que Guanes, nessa manhã, não quisera descer com eles à mata de Roquelanes. E assim era a sorte ruim! Pois que se Guanes tivesse quedado em Medranhos, só eles dois teriam descoberto o cofre, e só entre eles dois se dividiria o ouro! Grande pena! Tanto mais que a parte de Guanes seria em breve dissipada, com rufiões, aos dados, pelas tavernas.
— Ah! Rostabal, Rostabal! Se Guanes, passando aqui sozinho, tivesse achado este ouro, não dividia conosco, Rostabal!
O outro rosnou surdamente e com furor, dando um puxão às barbas negras:
— Não, mil raios! Guanes é sôfrego... Quando o ano passado. se te lembras, ganhou os cem ducados ao espadeiro de Fresno, nem me quis emprestar três para eu comprar um gibão novo!
— Vês tu? — gritou Rui, resplandecendo.
Ambos se tinham erguido do pilar de granito, como levados pela mesma ideia, que os deslumbrava. E, através das suas largas passadas, as ervas altas silvavam.
— E para quê — prosseguia Rui. — Para que lhe serve todo o ouro que nos leva? Tu não o ouves, de noite, como tosse? Ao redor da palha em que dorme, todo o chão está negro do sangue que escarra! Não dura até as outras neves, Rostabal! Mas até lá terá dissipado os bons dobrões que deviam ser nossos, para levantarmos a nossa casa, e para tu teres ginetes, e armas, e trajes nobres, e o teu terço de solarengos, como compete a quem é, como tu, o mais velho dos de Medranhos...
— Pois que morra, e morra hoje! — bradou Rostabal.
— Queres?
Vivamente, Rui agarrara o braço do irmão e apontava para a vereda de olmos, por onde Guanes partira cantando:
— Logo adiante, ao fim do trilho, há um sítio bom, nos silvados. E hás-de ser tu, Rostabal, que és o mais forte e o mais destro. Um golpe de ponta pelas costas. E é justiça de Deus que sejas tu, que muitas vezes, nas tavernas, sem pudor, Guanes te tratava de "cerdo" e de "torpe", por não saberes a letra nem os números.
— Malvado!
— Vem!
Foram. Ambos se emboscaram por trás de um silvado que dominava o atalho, estreito e pedregoso como um leito de torrente. Rostabal, assolapado na vala, tinha já a espada nua. Um vento leve arrepiou na encosta as folhas dos álamos — e sentiram o repique leve dos sinos de Retortilho. Rui, coçando a barba, calculava as horas pelo Sol, que já se inclinava para as serras. Um bando de corvos passou sobre eles, grasnando E Rostabal, que lhes seguira o voo, recomeçou a bocejar, com fome, pensando nos empadões e no vinho que o outro trazia nos alforjes.
Enfim! Alerta! Era, na vereda, a cantiga dolente e rouca, atirada aos ramos:
Olé! Olé!
Sale la cruz de la iglesia,
Vestida de negro luto...
Rui murmurou: — Na ilharga! Mal que passe! — O chouto da égua bateu o cascalho, uma pluma num sombreiro vermelhejou por sobre a ponta das silvas.
Rostabal rompeu de entre a sarça por uma brecha, atirou o braço, a longa espada — e toda a lâmina se embebeu molemente na ilharga de Guanes, quando ao rumor, bruscamente ele se virara na sela. Com um surdo arranco, tombou de lado, sobre as pedras. Já Rui se arremessava aos freios da égua — Rostabal. caindo sobre Guanes, que arquejava, de novo lhe mergulhou a espada, agarrada pela folha como um punhal, no peito e na garganta.
— A chave! — gritou Rui.
E arrancada a chave do cofre ao seio do morto, ambos largaram pela vereda — Rostabal adiante, fugindo, com a pluma do sombreiro quebrada e torta, a espada ainda nua entalada sob o braço, todo encolhido, arrepiado com o sabor do sangue que lhe espirrara para a boca: Rui, atrás, puxava desesperadamente os freios da égua, que, de patas fincadas no chão pedregoso, arreganhando a longa dentuça amarela. não queria deixar o seu amo assim estirado, abandonado, ao comprido das sebes.
Teve de lhe espicaçar as ancas lazarentas com a ponta da espada — e foi correndo sobre ela, de lâmina alta, como se perseguisse um mouro, que desembocou na clareira onde o sol já não dourava as folhas. Rostabal arremessara para a relva o sombreiro e a espada; e debruçado sobre a laje escavada em tanque, de mangas arregaçadas, lavava, ruidosamente, a face e as barbas.
A égua, quieta, recomeçou a pastar, carregada com os alforjes novos que Guanes comprara em Retortilho. Do mais largo, abarrotado, surdiam dois gargalos de garrafas. Então Rui tirou, lentamente, do cinto, a sua larga navalha. Sem um rumor na relva espessa, deslizou até Rostabal, que resfolegava, com as longas barbas pingando. E serenamente, como se pregasse uma estaca num canteiro, enterrou a folha toda na largo dorso dobrado, certeira sobre o coração.
Rostabal caiu sobre o tanque, sem um gemido, com a face na água, os longos cabelos flutuando na água. A sua velha escarcela de couro ficara entalada sob a coxa. Para tirar de dentro a terceira chave do cofre, Rui solevou o corpo — e um sangue mais grosso jorrou, escorreu pela borda do tanque, fumegando.

III
Agora eram dele. só dele, as três chaves do cofre! E Rui, alargando os braços, respirou deliciosamente. Mal a noite descesse, com o ouro metido nos alforjes, guiando a fila das éguas pelos trilhos da serra, subiria a Medranhos e enterraria na adega o seu tesouro! E quando ali na fonte, e além rente aos silvados, só restassem, sob as neves de Dezembro. alguns ossos sem nome. ele seria o magnífico senhor de Medranhos, e na capela nova do solar renascido mandaria dizer missas ricas pelos seus dois irmãos mortos... Mortos como? Como devem morrer os de Medranhos — a pelejar contra o Turco!
Abriu as três fechaduras, apanhou um punhado de dobrões, que fez retinir sobre as pedras. Que puro ouro, de fino quilate! E era o seu ouro! Depois foi examinar a capacidade dos alforjes — e encontrando as duas garrafas de vinho, e um gordo capão assado, sentiu uma imensa fome. Desde a véspera só comera uma lasca de peixe seco. E há quanto tempo não provava capão!
Com que delícia se sentou na relva, com as pernas abertas, e entre elas a ave loura, que recendia, e o vinho cor de âmbar! Ah! Guanes fora bom mordomo — nem esquecera azeitonas. Mas por que trouxera ele, para três convivas, só duas garrafas? Rasgou uma asa do capão: devorava a grandes dentadas. A tarde descia, pensativa e doce, com nuvenzinhas cor-de-rosa.
Para além, na vereda, um bando de corvos grasnava. As éguas fartas dormitavam, com o focinho pendido. E a fonte cantava, lavando o morto.
Rui ergueu à luz a garrafa de vinho. Com aquela cor velha e quente, não teria custado menos de três maravedis. E pondo o gargalo à boca, bebeu em sorvos lentos, que lhe faziam ondular o pescoço peludo. Oh! vinho bendito, que tão prontamente aquecia o sangue! Atirou a garrafa vazia — destapou outra. Mas, como era avisado, não bebeu, porque a jornada para a serra, com o tesouro, requeria firmeza e acerto. Estendido sobre o cotovelo, descansando, pensava em Medranhos coberto de telha nova, nas altas chamas da lareira por noites de neve, e o seu leito com brocados, onde teria sempre mulheres.
De repente, tomado de urna ansiedade, teve pressa de carregar os alforjes. Já entre os troncos a sombra se adensava. Puxou uma das éguas para junto do cofre, ergueu a tampa. tomou um punhado de ouro... Mas oscilou, largando os dobrões, que retilintaram no chão, e levou as duas mãos aflitas ao peito. Que é, D. Rui? Raios de Deus! Era um lume, um lume vivo, que se lhe acendera dentro, lhe subia até às goelas. Já rasgara o gibão, atirava os passos incertos, e, a arquejar, com a língua pendente. limpava as grossas bagas de um suor horrendo que o regelava como neve. Oh Virgem Mãe! Outra vez o lume, mais forte, que alastrava, o roía! Gritou:
— Socorro! Alguém! Guanes! Rostabal!
Os seus braços torcidos batiam o ar desesperadamente. E a chama dentro galgava — sentia os ossos a estalarem como as traves de uma casa em fogo.
Cambaleou até à fonte para apagar aquela labareda, tropeçou sobre Rostabal; e foi com o joelho fincado no morto, arranhando a rocha, que ele, entre uivos, procurava o fio de água. que recebia sobre os olhos, pelos cabelos. Mas a água mais o queimava, como se fosse um metal derretido. Recuou. caiu para cima da relva. que arrancava aos punhados, e que mordia, mordendo os dedos, para lhe sugar a frescura. Ainda se ergueu. com uma baba densa a escorrer-lhe nas barbas: e de repente, esbugalhando pavorosamente os olhos, berrou, como se compreendesse enfim a traição, todo o horror:
— É veneno!
Oh! D. Rui, o avisado, era veneno! Porque Guanes, apenas chegara a Retortilho, mesmo antes de comprar os alforjes, correra cantando a uma viela, por detrás da catedral, a comprar ao velho droguista judeu o veneno que, misturado ao vinho, o tornaria a ele, a ele somente, dono de todo o tesouro.
Anoiteceu. Dois corvos, de entre o bando que grasnava além nos silvados, já tinham pousado sobre o corpo de Guanes. A fonte, cantando. lavava o outro morto. Meio enterrado na erva negra, toda a face de Rui se tornara negra. Uma estrelinha tremeluzia no céu.
O tesouro ainda lá está, na mata de Roquelanes.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

SONHO DE BORBOLETA — Zhuang Zhou

Algum tempo atrás, eu, Zhuang Zhou, sonhei que era uma borboleta. Absorvido pela felicidade de ser uma borboleta, estava inebriado por voar por aí e fazer o que borboletas fazem. Eu nem mesmo sabia que era Zhou. Quando acordei, subitamente descobri que era Zhou. Eu não sabia se era Zhou sonhando que era uma borboleta, ou se era uma borboleta sonhando que era Zhou. Deve haver algo que separe Zhou da borboleta. Isso é chamado metamorfose.

PARTINDO DESTA VIDA — Anônimo

Neste caminho
muitas vezes ouvi dizer
que o homem parte no fim
— entretanto, nunca pensei partir
tão cedo
— hoje.

domingo, 26 de outubro de 2014

DUAS MÁXIMAS — Epicteto

Lembre-se de que quem você ama é mortal — que aquilo que você ama não lhe pertence; lhe é dado no presente, não irrevogavelmente, nem para sempre, mas assim como um figo ou um cacho de uvas, na estação apropriada do ano...

Eu sou por Natureza feito para meu próprio bem; não para meu próprio mal.

Dos Ensinamentos Áureos de Epicteto.

sábado, 25 de outubro de 2014

COMEÇA A MANHÃ DIZENDO A TI MESMO - Marco Aurélio

Começa a manhã dizendo a ti mesmo: hoje eu me encontrarei com um homem intrometido, um ingrato, um arrogante, um enganador, um invejoso, um antissocial. Todas estas coisas acontecem a eles por causa de sua ignorância do que é bom e do que é mal. Mas eu que compreendo a natureza do bem (que é desejável) e do mal (que é verdadeiramente odioso e vergonhoso), que sei, além disso, que este transgressor é meu parente - não pelo mesmo sangue e semente, mas por participação da mesma razão e da mesma partícula divina - eu não posso nem ser prejudicado por qualquer deles, pois ninguém pode me fazer incorrer no que é reprovável, nem posso me irar contra eles, cuja natureza é tão próxima da minha. Porque nascemos para a cooperação, como os pés, como as mãos, como as pálpebras, como as fileiras dos dentes superiores e inferiores. Agir um contra o outro, então, é contrário à natureza; e odiá-los ou rejeitá-los é agir um contra o outro.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

A SAUDAÇÃO DA AURORA — Texto Sânscrito.

Ouve a Exortação da Aurora!
Cuida deste Dia!
Pois é a Vida, a própria vida da Vida.
Em seu breve curso residem todas as Verdades
E Realidades de tua Existência:
A Bênção do Crescimento,
a Glória da Ação,
O Esplendor da Beleza.
Pois Ontem é apenas um Sonho
E Amanhã apenas uma Visão;
Mas Hoje bem vivido torna cada Ontem
Um Sonho de Felicidade,
E cada Amanhã uma Visão de Esperança.
Cuida bem, pois, deste Dia!
Esta é a Saudação da Aurora.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

A GRANDEZA DOS GRANDES — Pierre Victurnien Vergniaud

Os grandes senhores só são grandes porque nós estamos de joelhos: vamos ficar de pé!
Isso foi dito por Vergniaud num de seus discursos de 1792, durante a Revolução Francesa, em que teve participação fundamental. Esse pensamento é, em geral e erroneamente, atribuído a Étienne de La Boétie.
Pierre Victurnien Vergniaud foi guilhotinado em 31 de outubro de 1793.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

O HOMEM LIVRE E A MORTE — Spinoza

Um homem livre pensa menos na morte do que em qualquer outra coisa; e sua sabedoria não é uma meditação da morte, mas da vida.

Espinoza, Ética, Parte 4, Proposição 67

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

A GUERRA ENTRE OS ESPÍRITOS CELESTIAIS E OS DEMÔNIOS - Lusin (Chou Shujen)

Na guerra entre os supostos espíritos celestiais e os demônios, ambos os bandos não estão lutando pelo controle do céu, mas pelo controle do inferno. Portanto, independente de quem ganha, o inferno ainda permanece o inferno.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

QUAL É TEU DESTINO? — Omar Khayyam

Suponhamos que tenhas resolvido o enigma do universo.
Qual é teu destino?
Suponhamos que tenhas arrancado todos os véus que encobrem a verdade.
Qual é teu destino?
Suponhamos que tenhas vivido feliz por cem anos, e ainda vás viver mais cem anos.
Qual é teu destino?

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

DE O MITO DE SÍSIFO (EXCERTOS) — Albert Camus

Dedicado a todos que, sem esmorecimento, realizam seu trabalho quotidiano e não perdem a esperança.

Os deuses tinham condenado Sísifo a rolar um rochedo incessantemente até o cimo de uma montanha, de onde a pedra caía de novo por seu próprio peso. Eles tinham pensado, com as suas razões, que não existe punição mais terrível do que o trabalho inútil e sem esperança.
*
Se há um destino pessoal, não há nenhuma destinação superior ou, pelo menos, só existe uma, que ele julga fatal e desprezível. No mais, ele se tem como senhor de seus dias. Nesse instante sutil em que o homem se volta sobre sua vida, Sísifo, vindo de novo para seu rochedo, contempla essa sequência de atos sem nexo que se torna seu destino, criado por ele, unificado sob o olhar de sua memória e em breve selado por sua morte. Assim, convencido da origem toda humana de tudo o que é humano, cego que quer ver e que sabe que a noite não tem fim, ele está sempre caminhando. O rochedo continua a rolar.
 
Deixo Sísifo no sopé da montanha! Sempre se reencontra seu fardo. Mas Sísifo ensina a fidelidade superior que nega os deuses e levanta os rochedos. Ele também acha que tudo está bem. Esse universo doravante sem senhor não lhe parece nem estéril nem fútil. Cada um dos grãos dessa pedra, cada clarão mineral dessa montanha cheia de noite, só para ele forma um mundo. A própria luta em direção aos cimos é suficiente para preencher um coração humano. É preciso imaginar Sísifo feliz.

domingo, 12 de outubro de 2014

MÉTODO DA VISÃO DO ESQUELETO BRANCO — Chen Chiju

Imagine que um dedo de seu pé direito está infectado e tem uma ferida com uma inflamação. Aos poucos, essa inflamação se espalha pelo tornozelo, sobe até o joelho e chega à cintura. A mesma coisa acontece com sua outra perna. Progressivamente, a doença se estende da cintura à barriga, sobe pelo peito e e aos poucos atinge o pescoço e a cabeça. O seu corpo inteiro será destruído e só restará um esqueleto branco. Olhe esse esqueleto branco, parte por parte, cuidadosamente, com vagar e atenção. Pergunte a si mesmo: "Quem é esse esqueleto branco? Quem é a pessoa que olha esse esqueleto branco?" Separe sua existência real e absoluta do corpo e olhe as duas coisas como sendo diferentes. Então, aos poucos você verá o esqueleto branco distanciar-se de seu corpo, até ficar a quilômetros de distância. Você sentirá que esse esqueleto branco não lhe pertence de modo algum. Mantenha essa imagem na mente e pense em sua existência real e absoluta como sendo diferente da estrutura física e corpórea. Você pegou essa estrutura física e corpórea por empréstimo, para viver nela como hóspede; não pense que ela vai durar para sempre. Desse maneira, pode-se encarar a vida e a morte como a mesma entidade.

Lembre-se: é para esse esqueleto branco que você trabalha, em todos os sentidos, todas as horas de sua vida.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

A POBREZA NÃO É UMA DESGRAÇA (PROVÉRBIO 91) — Sr. Tut-Tut

A pobreza não é uma desgraça; a desgraça consiste na pobreza sem ambição. Uma posição humilde não é motivo para desprezo; o desprezo é merecido por alguém sem habilidade numa posição humilde. A velhice não é motivo para lamentação; lamentável é quem é velho, tendo vivido em vão. A morte não é motivo para tristeza; triste é quem morre sem ter beneficiado o mundo.

Sr. Tut-Tut, Cem Provérbios.
O texto acima foi traduzido da versão inglesa de Lin Yutang.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

PORTA DA CALAMIDADE E DA FELICIDADE

Não há nenhuma porta especial para a calamidade e a felicidade na vida humana; elas vêm de acordo com o apelo dos próprios homens. Suas recompensas seguem o bem e o mal como a sombra que acompanha um corpo.
Maldições e bênçãos não são limitadas a avenidas especiais, pelas quais elas caem do céu sobre o gênero humano. Não há nenhuma porta especial em nossas casas pelas quais elas entram; elas são independentes do espaço e vêm em resposta a nossas ações. Em outras palavras, não é um destino cego que dirige as maldições e as bênçãos, mas nós mesmos é que somos os autores de nosso destino.

Thâi-Shang, Tratado das Ações e de suas Retribuições.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

SOBRE OS BENEFÍCIOS DOS MALES — Nassim Nicholas Taleb

Nós nos beneficiamos, freqüentemente, dos males que outros nos causam; quase nunca dos males que causamos a nós mesmos.

O link abaixo leva ao original em inglês, entre outros aforismos do mesmo autor:
 

terça-feira, 7 de outubro de 2014

A ROSA - Rafael Barrett

A grande rosa aberta começa a desfolhar-se. Inclinada languidamente sobre a borda do vaso, desfaz com lento frenesi suas entranhas puríssimas, e uma a uma, no amplo silêncio do aposento, vão caindo suas pétalas trêmulas. Aquela, em quem se mesclaram os sucos tenebrosos da terra e o canto cristalino do firmamento, jaz aqui arrancada à sua pátria misteriosa; jaz prisioneira e moribunda, resplandecente como um troféu e banhada nos perfumes de sua agonia.
Morre, quer dizer, se desnuda. Vão caindo suas pétalas trêmulas; vão caindo as túnicas em torno de sua alma invisível. Nem mesmo o sol com tanto esplendor sucumbe. Nas cem asas da rosa que lentamente se inclinam e se abatem, palpita a neve inacessível da lua, e o rubor da alvorada, e o incêndio magnífico da aurora boreal. Pelas feridas da flor sangra beleza.
Esta rosa, mais bela ainda ao morrer que ao nascer, nos oferece com sua aparição discreta um suave ensinamento. Só viveu um dia; um dia lhe bastou para ocupar o mais nobre cume das coisas. Nós, os privados de beleza, vivemos, ai!, longo tempo. São-nos concedidos anos e anos para que nos procuremos às cegas e avancemos um passo. E esperamos que ao menos a morte nos dará um pouco mais do que nos deu a vida. Para que prolongaria a beleza sua visita a este mundo estranho? Não podemos suportar o espetáculo da beleza senão por breves momentos.
São os seres belos que nos falam de nosso destino. A flor se despede; fala-me do que me importa, porque é bela. Vai-se e não a compreendi. Desnuda por fim, sua alma se desvanece e foge. O crepúsculo se entretém em borrar as figuras e em reunir a solidão ao silêncio. Entre meus dedos cansados se desgarram as pétalas defuntas. Já não são um troféu resplandecente, mas os despojos de um sonho inútil.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

A INFELICIDADE É UM ERRO — Anatole France

É um grande erro ser desditoso, e é um erro imperdoável naqueles que estiveram antes numa posição invejável. Sua queda ao mesmo tempo nos vinga e nos lisonjeia, e somos inteiramente impiedosos.

Anatole France, O Crime de Sylvestre Bonnard, De 2 a 5 de Maio

sábado, 4 de outubro de 2014

ORAÇÃO DE SÃO FRANCISCO

A "Oração de São Francisco" foi publicada, pela primeira vez, por um padre francês, Esther Bouquerel, na revista La Clochette em dezembro de 1912. Só em 1927 foi associada a São Francisco de Assis.

O link para o texto da Wikipedia em francês é:

http://fr.wikipedia.org/wiki/Pri%C3%A8re_de_saint_Fran%C3%A7ois

Bela prece a rezar durante a Missa:

Senhor, fazei de mim um instrumento de vossa paz.
Onde haja ódio, que eu leve o amor.
Onde haja ofensa, que eu leve o perdão.
Onde haja discórdia, que eu leve a união.
Onde haja o erro, que eu leve a verdade.
Onde haja a dúvida, que eu leve a fé.
Onde haja o desespero, que eu leve a esperança.
Onde haja as trevas, que eu leve vossa luz.
Onde haja a tristeza, que eu leve a alegria.
Ó Mestre, que eu não busque tanto ser consolado como consolar, ser compreendido como compreender, ser amado como amar, pois é dando que se recebe, é esquecendo de si mesmo que se encontra, é perdoando que se é perdoado, é morrendo que se ressuscita para a vida eterna.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

BUSCA HOJE SER FELIZ — Omar Khayyam

Já que ignoras o que te reserva o dia de amanhã, busca hoje ser feliz.
Pega uma ânfora de vinho, senta-te à luz da lua e bebe,
enquanto murmuras que talvez amanhã a lua te procure em vão.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

O PODER DAS LIMITAÇÕES

"Eu fico tão entediada de compor com um violão, então eu componho com qualquer outro instrumento. [...] Eu fui em frente com um bandolim, um equipamento de jazz e apitos de lata, e percussão, é claro. Mas eu jurei nunca mais compor novamente só com um violão acústico - porque é tão enfadonho. Depois de compor um par de canções, o violão não lhe dá nada novo. Eu não posso tocar o bandolim, assim eu tive que imaginar um modo de tirar sons agradáveis dele. E as limitações da gente são muito mais excitantes do que saber tocar um instrumento eximiamente. Eu não tenho nenhum interesse em fazer isso.
 
Então você sempre se pressiona? 
 
Nem mesmo isso. Eu só não quero ser entediada por nada. Eu não quero estar tão habituada com qualquer coisa em que estou trabalhando a ponto de saber onde vai terminar: tipo - 'eu já sei fazer este número'. Isso não me manterá interessada por bastante tempo."

Da entrevista de Cathy Davey, State Magazine.
State Magazine é um site premiado da Web irlandesa.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

INDIGNAÇÃO CONTRA O VÍCIO BEM SUCEDIDO — Aristóteles

A Indignação contra o vício bem sucedido é um estado intermediário entre a Inveja e a Malevolência: todas as três se referem ao prazer e ao sofrimento gerados pelo que acontece ao vizinho: pois o homem que tem este sentimento correto fica aborrecido com o sucesso imerecido dos outros, enquanto o homem invejoso vai além e fica aborrecido com qualquer sucesso alheio, e as pessoas malévolas não apenas se aborrecem, mas ainda se alegram com o infortúnio alheio.

Aristóteles, Ética, Livro 2, 7, 7, 3