Je ne fay rien sans gayeté

Eu não faço nada sem alegria

Montaigne, Les Essais - Livre II, Chapitre 10.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

MULHER NEGRA — Léopold Sédar Senghor

MULHER NEGRA

Mulher nua, mulher negra

Vestida de tua cor que é vida, de tua forma que é beleza!
Eu cresci à tua sombra; a doçura de tuas mãos enfaixava meus olhos
E eis que no centro do Verão e do Sul, eu te descubro,
Terra prometida, do topo de um colarinho alto calcinado1
E tua beleza me atinge como um raio em pleno coração, como o relâmpago de uma águia.

Mulher nua, mulher obscura

Fruto maduro de carne firme, êxtases sombrios do vinho negro, boca que torna lírica minha boca
Savana dos horizontes puros, savana que fremias às carícias ferventes do vento Leste
Tom-tom2 esculpido, tom-tom esticado que gemes sob os dedos do vencedor
Tua voz grave de contralto é o canto espiritual da Amada.

Mulher nua, mulher obscura

Óleo que nenhum sopro enruga, óleo calmo nos flancos do atleta, nos flancos dos príncipes de Mali
Gazela de relações celestes, as pérolas são estrelas sobre a noite de tua pele
Delícias espirituais, os reflexos de ouro vermelho sobre tua pele furta-cor
Na sombra de teus cabelos, se ilumina minha angústia nos sóis próximos de teus olhos.

Mulher nua, mulher negra

Canto tua beleza que passa, forma que fixo no Eterno
Antes que o Destino ciumento te reduza a cinzas para nutrir as raízes da vida.

1 Senghor estava na França (au coeur de l’Eté et de midi), a que alude também o colarinho alto.
2 Tom-tom ou timbalão é um tambor, parte do conjunto de uma bateria.

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